Com 4 anos recitava livros de cor. Aos 25, trabalhou sobre manuscritos inéditos de Almeida Garrett e apresentou ao público uma face do escritor, até então, praticamente desconhecida. Conheça a história da investigadora que levava originais de Garrett na mochila e sentia o peso da responsabilidade de quem transporta uma “imagem sagrada”.

Desde que se conhece que Sandra Boto se lembra de gostar de livros e de andar com eles para todo o lado. Conta a mãe que, com apenas 4 anos, se sentava à porta de casa, com o livro da Anita na mão, com o dedo a seguir as linhas, como se estivesse a ler. “Fazia inclusive as pausas da pontuação. As pessoas ficavam espantadas porque achavam que eu já sabia ler, mas, na verdade, eu tinha decorado o livro, de tantas vezes que pedia para mo lerem”.

Hoje, filóloga de profissão, a vida da jovem investigadora, continua a passar pelos livros. Como nos conta “o livro sempre foi um objeto de que me rodeei de forma muito natural”. Antes de se sentar para a entrevista, pousa dois ou três em cima da secretária. Música e literatura é o mote para o início da conversa.

Afinal, é a música que traz Sandra Boto à literatura e é a literatura que, irremediavelmente, continua a levá-la de volta à música.

Prova disso foi o modo caricato como, há dias, descobriu, no processo de transcrição dos manuscritos do romance Adozinda (1827), de Almeida Garrett, que o escritor, estava, na altura, a aprender música.

Como nos conta, “quando descobri, nessa última página, um fragmento de uma partitura com umas notas musicais e uma anotação com uma inscrição pensei, imediatamente, que o Garrett tinha assistido a uma representação de uma ópera sobre o mito de Fausto. Vim a descobrir, e recuperando o meu Manual de História da Música, que a inscrição era, afinal, uma técnica mnemónica medieval que designa as notas musicais atuais, e que, afinal, o Garrett estava apenas a aprender música e a aprender a localizar as notas numa partitura”.

Melómana por excelência, Sandra Boto confessa que:

não conseguimos despir aquilo que somos quando estamos a analisar um texto, seja ele qual for. Temos uma mundividência na cabeça que enforma o nosso modo de olhar e a nossa leitura”.

E ler em profundidade é precisamente a tarefa a que se dedica, diariamente, esta investigadora. Com a obra de Almeida Garrett como pano de fundo, Sandra Boto, que iniciou o seu percurso académico na Universidade do Algarve, procura confrontar testemunhos do mesmo texto para perceber qual teria sido a última vontade editorial do autor. Interessa-lhe compreender “qual foi a forma que o texto teve na cabeça daquele homem pela última vez” porque considera que o “leitor tem direito a ler aquilo que o autor lhe quis dar a ler” e não um conjunto de “trinta mil trapalhadas que alguém introduziu, sem validação, na altura em que publicou”.

Como adianta, a questão é ainda mais profunda: “Será que já nos perguntámos se aquilo que estamos a ler foi aquilo que o autor quis escrever ou aquilo que quis que nós lêssemos? É esta a pergunta a fazer. Quando vamos a uma papelaria e compramos Os Maias, sabemos, realmente, se estamos a ler aquilo que o Eça escreveu? Normalmente não pensamos muito sobre isso. Há um nível de questionamento que o leitor comum não tem”.

O objetivo de Sandra Boto é precisamente assistir a leitura, ajudar a reconstruir, a partir dos manuscritos, e tal como um arqueólogo, “aquilo que o autor deixou por fazer”. Para isso, como nos explica, é preciso ter um extremo domínio não apenas sobre a obra, como também sobre o código e sobre o autor. Só assim, garante, é possível tentar colocar-se no lugar do escritor e oferecer ao leitor o texto mais fiel possível.

Como nos explica, a imagem mais perfeita para descrever o seu trabalho “é a de um arqueólogo que encontra uma peça e tenta limpá-la e atribuir-lhe sentido, inseri-la num contexto, dar-lhe uma função”.

Sandra Boto não encontra moedas em terrenos em ruinas, mas trabalha com autênticos tesouros editoriais que, como nos explica, têm de ser lapidados e depurados, por forma a trazer à luz uma leitura mais iluminada, mais clara e contextualizada das obras e dos autores em questão.

Esse é, aliás, para a investigadora, o grande desafio:

quando edito, de repente, tudo é possível. Tenho de me colocar no mundo do autor e fazer uma construção. Sou incapaz de editar um texto sem o perceber, sem lhe construir um sentido”.

Essa construção pode tomar-lhe horas e até dias. É, como nos confessa, um “vício”, um “trabalho de detetive” que passa por “juntar pistas” até chegar a uma conclusão final que ajuda o leitor a compreender melhor o autor e o texto.

Com os manuscritos, Sandra mantém uma relação obsessiva. Confessa-nos que, se termina hoje o dia de trabalho e fica por resolver uma decifração ou um problema, “simplesmente não consigo parar de pensar nisso. Quanto mais problemas resolvo, mais problemas encontro”.

O motor está ligado. Porque, como adianta, nos manuscritos, nem tudo está no texto. E para “restaurar” um autor é preciso ir ao fundo de cada questão, conhecer-lhe “todos os tiques”.

Desde o tipo de papel usado, ao género de anotações que faz à margem, para o trabalho da investigadora, tudo conta, pois, como esclarece, “estes elementos que, à partida, podem não parecer importantes são, por vezes, fundamentais para conseguir perceber um determinado texto”. Desde a possibilidade de datar os manuscritos à possibilidade de antever, a partir de determinadas notas do autor, relações de sentido, Sandra Boto garante que “todas as marcas são úteis pois dão-nos pistas sobre o autor, sobre as suas leituras, os seus interesses, as obras que o marcaram e que marcam aquele texto em particular”.

Como na música, sublinha a investigadora, “tudo é uma questão de sensibilidade e de interpretação”. Sandra Boto aprendeu-o bem cedo quando, aos 8 anos, de forma casual, e depois de lhe terem oferecido um teclado, começou a tocar melodias de ouvido.

Seguiram-se 7 anos a estudar piano numa escola de música. Depois das aulas, apanhava sozinha o autocarro para o conservatório onde os pais a iam buscar ao final do dia. Numa cidade pequena, e, na altura, sem internet, a então estudante, satisfazia a curiosidade refugiando-se numa pequena loja de discos que existia junto à Escola Francisco Fernandes Lopes, em Olhão. Era lá que comprava cd’s de música clássica para conhecer mais e tentar compreender melhor o repertório que interpretava.

Confessa-nos que foi sempre a curiosidade que a moveu, a vontade de construir. “Lembro-me que quando entrei no conservatório progredi muito rapidamente e as minhas colegas que já lá estudavam há mais tempo começaram a escrever-me mensagens no manual de solfejo a perguntar: ‘queres passar à minha frente? Sim ou não?’ Eu colocava sempre uma cruzinha no ‘não’. Na verdade, não tinha o mínimo interesse nisso. Tentava documentar-me, conhecer mais, de forma autónoma e autodidata. Mas nunca foi algo que fizesse com princípios utilitaristas. Fazia-o por gosto. Ainda hoje sou assim. O que me diverte eu não consigo deixar de fazer”.

 

Do piano a Garrett, a viagem parece curta: “Quando se toca e quando se interpreta temos de conjugar uma série de fatores que nos permitem construir algo; talvez da mesma forma, quando edito um texto tenho de lhe construir um sentido. Não consigo ouvir uma música sem fazer uma construção tal como não consigo ler um texto sem lhe construir sentidos”.

Foram, curiosamente, a música e a literatura que ofereceram a Sandra Boto o sentido da vida como hoje a conhece. 7 anos ao piano e outros tantos sentada numa secretária para mostrar ao público uma face do escritor romântico que poucos conhecem, deram-lhe, como admite, “um mundo maior”.

É desse “mundo maior” que nos fala. Por entre os muitos papéis que acumula na sua secretária e as dezenas de artigos publicados, Sandra Boto que, em finais de 2006, decidiu fazer uma tese de doutoramento a partir da descoberta de novos manuscritos inéditos do autor romântico, garante que há um lado de Almeida Garrett que não pode ser ignorado. Como explica, “o problema de Garrett e de todos os autores que fazem parte do cânone literário é que estão profundamente formatados por ele. O Garrett é visto como o escritor das Viagens na minha terra, do Frei Luís de Sousa, e como autor de uma lírica que é lida numa sebenta até à exaustão. Mas pouca gente conhece o lado do Garrett associado ao Romanceiro, isso é algo que é perfeitamente secundarizado, porque toca num terreno que o cânone olha com preconceito, que é o terreno da literatura de tradição oral”.

 

A estudar a obra do autor há mais de uma década a investigadora alimenta ainda o desejo de mostrar ao público que:

o papel da poesia tradicional no contexto da obra de Almeida Garrett é tão poderoso e tão subversivo como As Viagens na minha Terra”.

Esse é, aliás, um dos pontos de chegada da sua tese de doutoramento, que, segundo nos conta, lhe permitiu, em 2011, restaurar a imagem de um homem que era visto como “um falsificador de textos tradicionais” para mostrar que Almeida Garrett atua, afinal, em função de um programa estético – que é o do nacionalismo português e da imposição de uma poesia portuguesa ancestral.

“Garrett não é um falsificador, é um poeta que quer romper com uma poesia oca e impor um novo código. É em função disso que ele atua, e não a pensar que está a enganar outras pessoas”, adianta a investigadora.

“Se ele não tivesse ido para Londres, se ele não se tivesse exilado, se ele não tivesse conhecido, no exílio, o trabalho que faziam os alemães e os ingleses na altura, pergunto-me o que teria sido o Romantismo em Portugal. Pergunto-me se teria havido um Eça? Pergunto-me se a balada romântica seria o que veio a ser? Se essa revolução estética se teria consumado…”.

As perguntas percorrem a mente de Sandra Boto a uma velocidade estonteante.

A relação com Almeida Garrett, a quem, carinhosamente, se refere como “seu marido”, essa, é já de longa data. Dos anos de “namoro” com a obra do autor, durante o doutoramento, a investigadora recorda, particularmente, um episódio:

“Houve um dia em que a Vera Futscher-Pereira, que era a proprietária dos materiais com os quais eu trabalhava, me deixou trazer alguns manuscritos na mochila. Lembro-me que, naquela tarde, me senti como se transportasse uma imagem sagrada. Cheguei a casa e mostrei aquilo a toda a gente. Estava radiante. Era um privilégio que eu nunca pensei poder vir a ter na vida”.

A esse seguiram-se outros, durante os anos em que, generosamente, a família Futscher-Pereira lhe abriu as portas de sua casa para que pudesse desenvolver a investigação.

Quando a sua filha nasceu, em 2007, Sandra Boto já trabalhava sobre a obra do escritor. “Aos 3 anos, rodeada de impressões de poemas, eu mostrava-lhe um manuscrito e ela sabia que era do Garrett. Ela nasceu e eu já vivia com o Garrett. Ela cresce e eu vivo com o Garrett.  Ele está sempre lá, em permanência”.

Até em sonhos. A jovem investigadora relembra que na fase em que estava a escrever a tese de doutoramento tinha “flashes”, todas as noites, com a caligrafia do autor. “Era uma coisa aberrante. Era como se tivesse uma televisão à frente em que me passava caligrafia, caligrafia, caligrafia…o cérebro não desliga. Enquanto não consegues resolver aquele problema, aquilo não te larga, persegue-te, como se te puxasse pelos braços e pelas pernas e te prendesse”.

Para Sandra Boto, para quem o saber vale por si próprio, sem necessidade de algo que o justifique, editar textos é mais que uma tarefa técnica, é uma forma de chegar a outros lugares, a outras ligações. Como explica “mais interessante que aprender uma técnica é perceber onde é que ela te conduz”.

No caso da antiga aluna de Estudos Portugueses a edição levou-a também ao contacto com o público quando, em 2003, e integrando a equipa de Pere Ferré, começou a participar em recolhas de romances tradicionais.

Foi num desses momentos que, numa experiência em grupo, viveu aquele que descreve como um dos episódios mais caricatos da sua formação: “Lembro-me de uma vez, durante uma recolha nos Pirenéus, um colega me ter pregado uma partida. No meio das montanhas, decidiu dizer-me que não tinha carta de condução. Então, metia as mudanças todas erradas, fazias as curvas ao contrário… Tudo para ver a minha reacção. Levou um dia inteiro assim. Mas eu não me desmanchei. Estive ali, a morrer de medo, entre o crédulo e o incrédulo, mas nunca lhe fiz a vontade, nunca, em momento algum, cedi” (conta, entre risos).

A essa recolha seguiram-se muitas outras. Entre o trabalho de campo e o trabalho de gabinete, Sandra Boto continua a perder-se nas curvas dos manuscritos, a encontrar-se a cada novo desafio que o texto lhe impõe.

Acredita que “teoria e prática não são mundos opostos” e que “a teoria é uma prática elevada ao sublime”. A mãe conta que, em pequena, fazia imensas perguntas. “Ela simplesmente tinha de saber”. Ainda hoje assim é. Sandra Boto pergunta e os manuscritos, de alguma forma, ajudam-na a responder, a conjugar, a construir. A oferecer ao leitor um texto estabelecido e bem fixado. No fundo, a fazer aquilo que mais gosta – a “retirar, com pincel, os grãos de areia de uma determinada moeda”. A oferecer novas faces. Novos detalhes. Novas informações.

Sandra Boto restaura, diariamente, a imagem de Almeida Garrett. O visconde, certamente, agradece.

 

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Com os Professores Giuseppe Di Stefano e Pere Ferré na Universidade de Coimbra, em junho de 2017, durante o V Congresso Internacional do Romanceiro.
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*Sandra Boto é atualmente investigadora do CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação (Universidade do Algarve) e do CLP – Centro de Literatura Portuguesa (Universidade de Coimbra).