Conheça a história da médica portuguesa que está a revolucionar os cuidados de saúde no único campo de desalojados, com presença de uma ONGD, a prestar cuidados de saúde, após o ciclone Idaí. Das peripécias da adolescência à medicina de catástrofe, garante ter aprendido com o povo moçambicano a maior lição de todas: a da felicidade e da resiliência após a tragédia. 

De Ana Pinto de Oliveira poderia dizer-se que vive no olho do furacão. Foi, aliás, o ciclone Idaí que a levou a Moçambique, local onde hoje trabalha como médica de saúde pública, no único campo de desalojados com presença de uma ONGD (organização não-governamental de desenvolvimento) a prestar cuidados de saúde no terreno, após a tragédia de março de 2019.

No campo, onde garante que raramente é movida pela emoção, a médica portuguesa ajuda a prestar cuidados de saúde, trabalhando na formação, apoio e capacitação dos profissionais moçambicanos no terreno e delineando, nos bastidores, estratégias de gestão que permitam criar aquilo a que chama de “a água e o sabão” – ou seja, a base para a criação e organização de um serviço de saúde.

Em Ndedja, localidade do distrito de Nhamatanda, onde se localiza o centro de desalojados, Ana Pinto de Oliveira implementou uma estratégia de cuidados domiciliários para os indíviduos com problemas mentais e com problemas de locomoção e, por isso, impossibilitados de deslocar-se, no interior do campo, a um posto médico.

Num campo  que conta com mais de 2500 pessoas, a médica portuguesa visitou um a um, todos os desalojados. De tenda em tenda, garante ter conhecido a melhor parte do povo moçambicano – o espírito alegre e risonho. «Sempre me fez confusão o fatalismo e quando cheguei a Moçambique percebi que estava no sítio certo». Ali encontrou um povo que, pese embora a adversidade, se mostrou sempre resiliente. «Eu estava sempre a brincar com eles …

Eles estavam sempre a sorrir. É uma coisa impressionante. Tinham acabado de passar por um ciclone e nunca perderam a capacidade de resistir.

Dessa perspetiva, Ana Pinto de Oliveira assegura ter encontrado em Ndedja também uma parte de si: «sou um bocadinho como eles. Sou a palhaça da casa, aquela que põe toda a gente a rir, e eles são exatamente assim».

Num local onde o sofrimento e a fome uivam dia e noite, a médica portuguesa faz um esforço por manter a razão acima da emoção. «Todas aquelas pessoas passam fome e eu não posso fazer nada. Não vou alterar essa realidade. Se nós não estivéssemos lá aconteceria o mesmo. E a verdade é que não conseguimos levar tudo para o campo. Podemos melhorar um bocadinho, mas não podemos resolver aqueles problemas». Por esse motivo, conta, quando chegou a Moçambique, teve de tomar uma decisão. «Tinha colegas que queriam levar tudo para o campo, e eu decidi que não íamos levar medicação nenhuma. Por quê? Estas pessoas vão ter essa medicação durante quanto tempo? Durante o tempo em que lá estivermos? Então vamos criar um problema. E quando sairmos o que vão tomar, o que vão ministrar aos pacientes? Então esqueçam … não vale a pena. Eu sei que é difícil, mas…» (solta, em tom de desabafo).

Quando lhe pergunto se, em missão, é mais importante dar ou receber, Ana Pinto de Oliveira é peremptória em afirmar que «aprendemos muito mais com eles. Ensinamos muito e ajudamos muito porque eles não têm recursos, mas fazem autênticos milagres», afirma, referindo-se aos profissionais de saúde moçambicanos no terreno.

Habituada a não criar expectativas em relação a nada, Ana aprendeu que, como nos conta, «as coisas são da altura (…) nunca há sonhos, nunca há ilusões, nunca podemos pensar que vamos mudar o que quer que seja. As realidades são as realidades e não vamos conseguir alterá-las.

Se vou pensar que 2500 pessoas não estão a comer como é que vou conseguir fazer o meu trabalho?.

Como médica de saúde pública, Ana Pinto de Oliveira garante conseguir lidar muito bem com o sofrimento dos outros. «Sou muito pragmática, não trago nada para casa. Trabalhei durante um ano em cuidados paliativos e não houve um único dia em que viesse para casa a chorar ou a pensar no infortúnio daquelas pessoas… nunca saí de lá triste».

A propósito, recorda, aliás, um episódio caricato: «Lembro-me que uma vez saí de um estágio um bocadinho enervada, saí de lá a chorar, e quando cheguei ao carro olhei para o meu marido e disse-lhe: ‘deixa-me ali nos paliativos, preciso de me rir um bocado, preciso de desanuviar’».

De espírito livre, gargalhada fácil e coração aberto, Ana Pinto de Oliveira garante que foi nos paliativos que passou alguns dos melhores tempos da sua vida, recuando alguns anos para nos contar como se tornou médica quase ‘por acidente’.

«Nunca quis Medicina, achava aquilo horrível, não me identificava. O que eu gostava era de estudar. Explorar toda a parte da investigação, da Biologia, dos microscópios… Tanto que em 20 anos de trabalho nunca senti que estivesse verdadeiramente a trabalhar».

Relembra que, na altura em que concorreu à Universidade, muitos foram os que tentarem demovê-la de ir para Biologia. O argumento, esse, era inevitavelmente o mesmo – todos lhe diziam que não ia conseguir encontrar emprego. Mesmo assim, Ana Pinto de Oliveira, que confessa ser um bocadinho ‘anti-manadas’, decidiu arriscar. 

Em 2003, foi estagiar sozinha para um pequeno laboratório de Microbiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Foi convidada a ficar como técnica superior e, mais tarde, como docente.

Apaixonada pelos estudos e sedenta de novos conhecimentos, a atual diretora do departamento de projetos nacionais e internacionais da Médicos do Mundo, achou que as suas aulas podiam ser melhores se soubesse Medicina. Foi então que decidiu concorrer ao Mestrado Integrado em Medicina, na Universidade do Algarve, casa que a formou como médica e a catapultou para uma nova realidade – a da Saúde Pública.

«Nunca quis tirar o Curso de Medicina pela parte clínica. Queria sobretudo aprender. Faço ciência, faço investigação, falo imenso, e, de repente, fiz a minha grande descoberta que foi, dentro da Medicina, ter descoberto a Saúde Pública e a Medicina de Catástrofe pela acção humanitária.»

Se, desde pequena, afirma quem a conhece, Ana Pinto de Oliveira parece ter tido sempre um apurado sentido de justiça e um ‘fraquinho’ por causas nobres, hoje, a realidade não anda muito longe disso.

Refilona e apaixonada por cães, a médica e investigadora portuguesa, recorda, com saudade, um dos seus primeiros episódios de rebeldia: «Lembro-me de arranjar uma grande confusão no ensino preparatório porque, na altura, havia aquelas redes que levavam os cães. E eu – que andava sempre com uma matilha atrás de mim – percebi que iam lá à escola recolher os animais. Juntei os meus colegas todos, com cartazes e em manifestação, e ninguém levou dali os cães, que eu não deixei», conta, entre risos.

Na casa dos avós, em Coimbra, onde garante ter passado os melhores momentos da sua infância,  Ana Pinto de Oliveira aprendeu, também, lições que ficariam para a vida. Ali cultivou a sua inquietação, a sua vitalidade, a sua singularidade, autonomia e altruísmo.

Recorda a avó que, ao pequeno-almoço, “não comia para poder dar aos cães”. A paixão, essa, mantém-se. O altruísmo extendeu-se, porém, a outras esferas.

Grande parte da sua juventude foi passada junto dos consumidores de drogas, mais concretamente na sua defesa, tarefa à qual deu, aliás, continuidade quando se tornou, em 2019, em Portugal, diretora clínica da primeira unidade móvel de consumo vigiado.

Da rua para as catástrofes, Ana Pinto de Oliveira assegura que no trabalho ‘leva tudo à frente’. Tal como um tufão, de intensidade forte e ventos bem definidos, a investigadora portuguesa está envolvida num turbilhão de projetos. Entre o internato em Saúde Pública, a docência no Mestrado Integrado em Medicina, da UAlg, o doutoramento e as missões na Médicos do Mundo, é pouco o tempo que lhe sobra, até para a família. Com sorriso maroto e tom brincalhão confessa:

Às vezes páro… sim, porque estou sempre a trabalhar…e penso ‘se acontece alguma coisa ao meu marido e eu não estive a aproveitar esta cena?’.

Desde que se conhece que Ana Pinto de Oliveira se lembra de gostar de estudar. «Adoro o cheiro de uma faculdade, adoro andar dentro de uma faculdade. Por mim andava sempre a estudar. Lembro-me que durante as férias da escola só queria que o meu pai fosse comprar os livros para começar a folhear aquilo tudo antes de ir para as aulas». Diz nunca ter sido uma ‘croma do estudo’ mas garante que o segredo está no trabalho e na convicção com que se entrega a tudo aquilo que faz.

«Eu tinha as aulas, chegava a casa e fazia os meus caderninhos. As minhas sebentas ainda há poucos anos andavam em Coimbra a ser fotocopiadas. Nunca estudei para um exame, não sei estudar para um exame. Eu estudava todos os dias, e, portanto, quando chegava o exame, estava toda a gente fechada em casa e eu estava tranquilíssima. Para mim estudar não é um esforço».

Filha de pai médico, Ana Pinto de Oliveira, garante que nunca foi influenciada a seguir as mesmas pisadas do progenitor. Muito pelo contrário. Como nos conta, embora tenha sido sempre «responsável e trabalhadora», viveu, na sua juventude, tudo o que tinha para viver.

Exemplo disso foi a noite em que experienciou, como nos conta, com uma amiga, uma peripécia adolescente: «Tinha uma amiga com quem, sempre que queríamos sair, combinávamos de dizer aos nossos pais que íamos dormir a casa uma da outra. Naquele dia, numa época em que estávamos a estudar para as específicas, decidimos sair. Ela veio estudar para minha casa, eu tinha uma mota e de madrugada arrancámos para a discoteca. Parámos para pôr gasolina e encontrámos o pai dela», relembra, entre risos. 

Para trás ficam as memórias da juventude, a alegria, essa, Ana Pinto de Oliveira faz questão de a transportar para cada momento da sua vida, mesmo quando o cenário é propício a tudo menos a sorrir.

Lembro-me da primeira vez que entrei num campo de desalojados e fui visitar a escola daqueles miúdos. Foi duro perceber que a escola era uma tenda e que aquelas crianças não tinham nada, nem um brinquedo…

Mas, lá está… eu também não estava preparada para essa realidade. São miúdos que não estão habituados a ter brinquedos. Levámos imensos brinquedos e as crianças, na sua maior parte, choravam com medo, porque nunca tinham visto nada daquele género».

Também ao conhecer a médica portuguesa, a reacção foi semelhante: «Muitos deles choram quando me vêem. Sou branca, de cabelo branco, e há crianças que nunca viram brancos. Lembro-me de uma miúda que ficou aterrorizada (nunca vi uma criança a gritar tanto). Cada vez que me aproximava dela gritava ainda mais. Ficou completamente em pânico. Como se se perguntasse ‘o que é isto à minha frente?’».

À sua frente está Ana Pinto de Oliveira. Sem filtros. Entre uma garfada e outra, conta-me histórias da juventude, do estudo, das missões. Começa a entrevista a dizer que não tem nada para me contar. Dez minutos depois, armou um vendaval. «Dizem sempre que sou diferente. Não sou de convenções. Fins de ano, para mim, é zero. Não celebro. Se eu posso ir à mesma discoteca trezentos e sessenta e quatro dias por ano, porque é que hei-de ir no trecentésimo sexagésimo quinto (365º), encontrar a discoteca cheia e ainda pagar dez vezes mais?».

Fechamos a conversa com a derradeira pergunta – Porque é que vale a pena ser médico?

Ana Pinto de Oliveira sorri. «Vale a pena ser médico para fazer acção humanitária e Saúde Pública. Se fosse por outra coisa eu não estaria aqui».