Conheça a história de Pedro Ferré, o investigador que, por conta de um mau professor de Matemática, passou ao lado do sonho de ser médico para se tornar no principal especialista do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna. Eis Pedro Ferré, o catalão que percorreu o país em busca de romances para oferecer à cultura portuguesa a primeira visão ‘iluminada’ sobre uma literatura viva que perpassa dezenas de gerações e continua a ser contada e cantada até aos nossos dias. 

Chega discreto. Ao peito traz o laço amarelo, símbolo independentista da luta que se vive do lado de lá da fronteira, a muitos quilómetros de distância. Não falamos da Catalunha, mas Pedro Ferré traz as origens coladas à pele. Da política à profissão, confessa-nos que, com 18 anos “sonhava por todos os poros”. Hoje, admite que, embora não se reveja completamente no rapazinho que, nos anos 70,  trabalhava na Embaixada da Argentina, em Lisboa, alguma coisa de muito importante ficou.

“A minha dimensão utópica nunca cessou, foi, com os anos moderando-se, mas, felizmente, não a perdi por completo”. Prova disso é a convicção com que afirma que “é sempre possível pensar uma coisa, sonhando a perfeição dessa coisa”.

Nascido num mundo conservador, Pedro Ferré cedo percebeu que, como hoje sustenta categoricamente, “um jovem sem uma dimensão utópica é um velho”.

Confessa que, não sabe se pela genética, se pela formação, foi do avô, que afirma ter sido sempre o seu modelo de vida, que herdou o espírito combativo e sonhador. Embora, como nos conta, em termos políticos tenham sido sempre diametralmente opostos foi a utopia o laço que os uniu.

É, aliás, com saudade que recorda uma infância passada, em grande medida, na casa do avô, médico de profissão, cujo cheiro do armário de medicamentos Pedro Ferré guarda, até hoje, na memória. Desses tempos, que descreve como “a idade de ouro” do homem que hoje é, conserva gratas recordações, aliadas a um profundo desejo de independência que, já na altura, manifestava. “Adorava os meus pais, mas queria assumir o meu destino”.

Um mau professor de matemática desviou-o, irremediavelmente, do desejo de seguir as pisadas profissionais da família, tornando-se médico ou veterinário. Hoje admite ter deixado para trás uma vocação. O futuro reservar-lhe-ia outros destinos. Quase cinquenta anos depois, o atual professor catedrático da Universidade do Algarve reencontra-se com o rapaz de 18 anos que, garante, “não sabia a sorte que viria a ter”. “A utopia valeu a pena”, conclui, com um sorriso nos lábios e ar triunfante.

Depois de ter estado inscrito durante 24 horas na Faculdade de Direito, “não porque gostasse mas porque era a profissão da época, e pensava seguir uma carreira diplomática”, Pedro rapidamente percebe que Direito seria um martírio e, cruzando a Alameda, vai direto à Faculdade de Letras, onde se inscreve em Filologia Clássica.

Mais uma vez, por conta de um mau professor de Grego, acabaria por não concluir este ciclo, doutorando-se, anos mais tarde, em Literaturas Românicas, e traçando um percurso que ficaria, inevitavelmente, associado àquilo que hoje conhecemos como o Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna.

A figura de Pedro Ferré confunde-se hoje com o estudo da própria Tradição Oral Moderna portuguesa, que este catalão ajudaria a construir.

A paixão começa, como nos conta, muito cedo: “quando estava a terminar o liceu havia, na literatura espanhola, um capítulo dedicado ao Romanceiro. E, para mim, foi fascinante descobrir que aquilo que estava nos livros ainda vivia. Isso deslumbrou-me completamente. Estamos habituados a lidar com uma literatura morta, que vive graças ao suporte papel, e que revive através das nossas leituras. Mas não estamos acostumados a uma literatura que, por acaso, está no suporte papel, mas que vive independentemente das nossas leituras porque continua a ser contada ou cantada. E isso encantou-me”.

Mas, o ‘clique’, sublinha, só viria a dar-se anos mais tarde, numa das suas inúmeras idas a Madrid para comprar livros. Bibliófilo confesso, Pedro Ferré, na altura ainda a desempenhar tarefas na Embaixada, sendo já monitor na Faculdade de Letras de Lisboa, vê um anúncio sobre o então Seminário Menendez Pidal e, imediatamente, pega no telefone para saber que tipo de actividades organizavam.

Do outro lado da linha a simpática voz de uma senhora que, como nos conta, viria a tornar-se numa das suas maiores amigas, lança um convite: acompanhar a equipa de trabalho a Segovia, para um Curso de Verão. “Lá fui, e foi aí que tudo nasceu”.

Aí fez as suas primeiras recolhas, em León e Astúrias iniciando um percurso que jamais viria a cessar e que o transformaria, no contexto português, no principal estudioso do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna.

Percebi que o Romanceiro português precisava de ser olhado de outra forma porque, infelizmente, em Portugal, estávamos a trabalhar ao contrário: do telhado para as bases. Ou seja, os alicerces não estavam feitos. Se eu perguntasse que romances havia em Portugal ninguém sabia.

A realidade viria, porém, a alterar-se. Tendo como ponto de partida o contacto com o arquivo de Menéndez Pidal, Pedro Ferré propôs-se tomar a empreitada do conhecimento e organizar e sistematizar este campo de estudo. “Que romances há em Portugal? O que é que a Tradição Oral Moderna teve ou ainda tem? Quais as áreas com maior e menor número de romances? Como vive o Romanceiro em Portugal? Eram questões que não tinham resposta.

O atual professor de Literatura Espanhola viria a dá-la praticamente 20 anos depois oferecendo a Portugal a primeira descrição de um corpus baladístico nacional, bem como os primeiros quatro volumes do Romanceiro Português da Tradição Oral  Moderna, dados à estampa pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Modesto, Pedro Ferré, diz, hesitante: “acho que fiz alguma coisa…”, para, logo em seguida, acrescentar que nada teria sido possível sem a ajuda e a generosidade dos seus alunos que, como sublinha, fizeram, com ele, 80% do trabalho de levantamento e organização das mais de 10.000 versões de romances presentes no Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna.

Um trabalho hercúleo que valeu a Pedro Ferré o reconhecimento como um dos maiores especialistas nesta área. “Percebi que quantas mais versões de um romance tinha à minha frente, mais melhorava a compreensão desse texto. Era indispensável conhecer um corpus e classificá-lo. Imaginem um botânico sem Lineu. Era isso que tínhamos em Portugal na área do Romanceiro. Como é que sabíamos se surgiam novas espécies se nem sabíamos as que existiam?”. Dezenas de anos depois, a paixão de Pedro Ferré, “o Lineu do Romanceiro Português”, parece manter-se intacta. Quando lhe pergunto sobre a importância deste tipo de literatura para a sociedade moderna, Pedro Ferré não hesita:

O Romanceiro pode ajudar-nos a entender determinadas coisas que, especialmente nos nossos dias, são muito importantes. O Romanceiro é uma grande lição para compreendermos que somos unos na nossa diversidade.

Se, como assinala, em analogia com o género, “este tipo de literatura é o que de mais particular e, também, paradoxalmente, o que de mais geral e universal há”, o mesmo acontece com a vida onde, como sublinha Pedro Ferré, “ a fome, a dor, a doença e a alegria” são iguais, independentemente da cor ou da raça, “mas há diferenças pequeninas, ínfimas, que têm de ser respeitadas. E uma delas é a língua, que é um dos menos respeitados traços de particularidade”, remata, com tristeza.

Por momentos, sentado no seu gabinete, na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, na Universidade do Algarve, Pedro Ferré viaja até à Catalunha para, rapidamente, regressar à Ciência e à política, deixando uma crítica:

A Ciência já se apercebeu da importância da biodiversidade, e isso reflete-se na preocupação com que olha para a extinção das espécies. A política ainda não se apercebeu, ou não quer perceber, da importância da biodiversidade – da diversidade das nações – nas pessoas e nas culturas…”.

Recordando que grande parte dos romances têm origem nas baladas europeias e que muitas das baladas europeias têm relação com temas da literatura asiática, Pedro Ferré não tem reservas em afirmar que, quando falamos do Romanceiro, “estamos a falar do mundo”.

Mundo esse que o investigador calcorreou até chegar a Portugal para, em 2000, se fixar, definitivamente, na Universidade do Algarve, de onde hoje nos fala. Ali desempenhou cargos de elevada responsabilidade, assumindo, na Instituição, a Presidência do Conselho Científico da sua faculdade, o cargo de Pró-Reitor e, por duas vezes, o de Vice-Reitor, com responsabilidades nas áreas da Cooperação Cultural e da Ciência, coordenando os Serviços de Documentação e ainda a política editorial da Universidade.

Foi, desde sempre, professor, mas, para falar da sua experiência em cargos reitorais, Pedro Ferré não consegue evitar o paralelo com a profissão que, anos antes, lhe escapou por entre os dedos. “Imagine um médico que chega a um determinado posto de saúde. De medicina sabe ele muito, mas quem vão ser os seus pacientes? De repente começa a conhecê-los um a um, vai fazendo as suas fichas, os seus relatórios… Eles passam a recorrer a si para se tratarem…E, para cada um, ele tem as soluções que considera mais oportunas. Mas, ao mesmo tempo, o médico começa a ter um panorama de quais são as grandes doenças, os grandes problemas que existem naquela área que lhe coube administrar medicamente”. Na reitoria sentiu-se um pouco médico, e tomou o pulso a uma Instituição que é parte da academia portuguesa, academia que o docente considera estar em profundo declínio. Lamenta, porém, não ter grandes remédios: “Estamos demasiados limitados nestas máquinas para se poder fazer alguma coisa”, desabafa.

Desiludido com uma Universidade que, garante, ser cada vez mais administração e menos humanista, Pedro Ferré recorda a sensação que teve há quase 30 anos, quando chegou a Utrech, na Holanda: “A Universidade mudou em todo o mundo. Aquilo que se nota na Universidade portuguesa hoje era algo que era inevitável. Recordo-me quando fui, nos anos 80, para Utrech, de achar que aquela Universidade era muito pouco dada à ciência e às humanidades, demasiado tecnológica, e com muito pouco pensamento reflexivo. E nessa altura, quando regressei ao nosso país, achei que Portugal, Itália, Espanha e França, eram as últimas Universidades cultas da Europa”.

Hoje, Pedro Ferré assume reencontrar-se com a mesma sensação que o assolou em Utrech, mas 30 anos depois.

Como é possível odiar o que mais se ama? Odeio aquilo em que a Universidade se transformou. Se me pergunta se odeio a Universidade eu respondo que sim, mas, ao mesmo tempo, se me pergunta o que é, para mim, o mundo sem a Universidade, é a minha morte, é o nada, é o vazio. A Universidade faz parte de mim, está intrinsecamente ligada ao que sou, às minhas entranhas”

Confidencia-nos que a utopia que ainda lhe resta lhe dá forças para continuar. “Mas começo a ficar cansado”, admite. “ A universidade caiu no pior dos discursos: o politicamente correcto”. E, para Pedro Ferré, que, embora professor, não se cansa de fazer diagnósticos, o problema é claro: “A administração perdeu qualidade. O reitor passou a ser simplesmente administrador. Porque hoje em dia há protocolos – utilizo aqui a palavra no sentido clínico – para tudo e porque, hoje em dia, gere-se por protocolos”. Recordando reitores como Ilídio do Amaral e Barahona Fernandes, o investigador não tem dúvidas em afirmar que “eles não estavam lá a administrar. Apesar de serem tempos difíceis, aqueles Homens tinham uma verdadeira visão da Universidade”.

Visão essa que, para Pedro Ferré, passa por três grandes vértices: “A primeira coisa que a Universidade tem de ser é pensamento, a segunda rutura. Pensamento e rutura conduzem a inovação.

Duvido que a Universidade de hoje seja pensamento, duvido que a Universidade seja rutura, então, não há inovação. Há ‘inovaçãozinha’”.

Como em instituições inteiras não cabem diminutivos, Pedro Ferré garante que enquanto não houver vontade de romper, ao invés de vontade de contemporizar, o cenário dificilmente se alterará: “Enquanto se for Tsípras e não Varoufakis, isto não vai a lado nenhum. Enquanto se optar por ser Tsípras e não Varoufakis a Universidade não está a ser fiel à sua missão”.

De acordo com o coordenador geral do Arquivo do Romanceiro, “há Instituições que têm de romper. Algumas não poderão, mas a Universidade tem a obrigação de romper, não pode ser de outra maneira”.

É com esta certeza que fecha o capítulo da governança. Faz uma pausa. Ainda ensaia o ínicio de uma frase “é que nós, os pensadores…”, para logo hesitar em continuar. Prossegue, reformulando:

“Nós os pensadores….isso era dantes… Era dantes que a Universidade pensava, agora a Universidade deixou de pensar, agora a Universidade está proibida de pensar”.

Voltamos ao Romanceiro. Pedro Ferré garante que está por todas as partes: na fachada da Faculdade de Letras, em autores contemporâneos como José Régio ou Fernando Pessoa. Trata-se, como sublinha, “de um género transtemporal” que cruza dezenas e dezenas de gerações.

Do manuscrito medieval à voz humana, cantada em pleno século XXI, este género cria autênticos caçadores de tesouros: “Tenho o exemplo de um romance completamente perdido que me apareceu, pela primeira vez, na Tradição Oral Moderna. Ninguém sabia que ele existia e, de repente, numa aldeia em Trás-os-Montes, depois de uma viagem acidentadíssima, uma autêntica aventura de National Geographic, lá estava ele. De facto, toda a aldeia sabia aquele romance. Mas só aquela aldeia é que o sabia”.

Foi essa faceta da investigação, esse lado de Sherlock Holmes, que, salienta Pedro Ferré, sempre atraiu os alunos, com quem, aliás, sempre manteve uma relação de enorme proximidade. Se, como nos conta, na vertente teórica, ouviam as suas aulas com um ar um pouco aborrecido, na hora de ir para o campo o cenário mudava completamente de figura.

Com eles percorreu o país de lés-a-lés, chegando até a ser transformado em personalidade do ano da Revista Time. De tantos momentos bonitos que assegura ter vivido com os alunos, Pedro Ferré recorda particularmente esse: “No final de um trabalho de campo fizeram uma montagem com uma fotografia minha, durante a recolha, e transformaram-me na capa da revista Time, com o título, em caixa alta – ‘O melhor professor do ano’”.

É que o melhor professor do ano parecia ser, como assegura quem por lá esteve, também o melhor cuidador do ano. Para as recolhas, Pedro Ferré levava um kit de primeiros socorros. Pensos, pomadas, medicamentos para a febre, diarreia… Algo que, como nos conta, lhe valeu a alcunha de ‘professor pastilhas’, dada a quantidade de medicamentos que levava para o trabalho de campo.

Quase 40 anos depois, Pedro Ferré é ainda o mesmo. Com um pé na biblioteca e um pé no campo, com os dois pés nas Humanidades mas uma incurável paixão pela Medicina, garante ser “um dos poucos seres verdadeiramente afortunados. Afortunado na profissão e na vida pessoal. E a primeira fortuna é poder exercer uma das carreiras que quis exercer. E isso tenho de agradecer muito à vida”.

Quando lhe pergunto o que ficou por fazer, Pedro Ferré sorri. “A vida é demasiado curta e, para um utópico como eu, eram precisas muitas mais vidas para fazer tudo o que queria, e, portanto, falta sempre tempo”.

Em tom de brincadeira, encerra a conversa com mais um episódio de infância. Agnóstico por natureza, conta que, quando era miúdo, se perguntava a si próprio muitas coisas: “como é que o mundo apareceu? Qual a origem de tudo isto?”. E, nessa altura, confidencia, “numa família católica, conservadora, havia uma resposta muito tranquilizadora: ‘quando chegares ao Céu perceberás tudo’. Para o pequeno Pedro Ferré o Céu era o espaço do conhecimento. Por isso, como nos conta, “desde os 6 anos que gostava de saber muitas coisas que sei que nunca conseguirei saber, e, se houvesse uma outra vida e houvesse um Deus com barbas que me explicasse…Olhe, aprendia algumas coisas”, diz (entre risos).