Raquel Varela é uma das mais reconhecidas pensadoras portuguesas da atualidade. Com 4 anos, aprendeu, à beira-rio, o que significava a palavra liberdade. Hoje, ajuda-nos a compreender o 25 de Abril através da lente da História Social. Garante que ‘não aprende a ficar bem com o que está mal’ e, por isso, acredita que o passado pode ser usado como arma para transformar o presente e pensar o futuro.

No dia 25 de abril de 1974 Raquel Varela ainda cá não estava. A liberdade bateu-lhe à porta anos mais tarde quando, depois de uma temporada a viver em casa da avó, em Alcobaça, regressou a Lisboa para estudar num colégio privado. A menina de quatro anos, que passeava de galochas à beira-rio acompanhada por dois patos que a seguiam para todo o lado, entendeu, nesse momento, o que significara Abril. “Aquilo, para mim, foi uma sensação de prisão. Tirar-me daquele espaço enorme e levar-me para aquele colégio foi terrível. Sentia que não podia respirar”. Confessa que essa talvez tenha sido a sua primeira noção de liberdade.

A lição ficaria para a vida: “Eu não sou adaptável a situações erradas. Torno-me muito disfuncional em situações erradas. Então, estou sempre à procura de mudar as coisas à minha volta. Isso é parte do meu estado irrequieto”.

Se, com quatro anos, Raquel Varela confessa que “era um perigo”, hoje, mantém ainda o mesmo brilho traquina no olhar.

Com a mesma firmeza com que, aos 20 anos decidiu interromper o Curso de Direito, em Coimbra, a investigadora, que é atualmente considerada uma das grandes pensadoras da História Contemporânea em Portugal, não tem reservas em afirmar que não aprende a ficar bem com o que está mal. “Acho isso completamente errado”.

As pessoas não têm nada que se contentar. Não há alegria na escassez, não há amor na pobreza, não há felicidade na carência. Para ser felizes temos que lutar por viver em ambientes felizes com pessoas felizes. Isso é fundamental.

Fiel ao seu pensamento, e ao encontrar uma Coimbra sem perspetiva crítica, pouco interessante e muito fechada sobre si própria, Raquel, que se iniciara em 97 como estudante de Direito, rapidamente percebeu que a pássaro com asas não se lhe pode pedir que fique preso ao galho.

“Acho que a função de um investigador e de um cientista social é criticar, sem mediações, os poderes. Nós temos uma função contrapoder. Isso para mim foi sempre um ponto assente. E, em Coimbra, não encontrei ninguém que me oferecesse uma perspetiva crítica”.

Inconformada e de malas feitas, segue para Munique, na Alemanha, onde trabalha durante um ano a servir às mesas num luxuoso bar de champanhe e charutos. “Foi o maior salário de toda a minha vida. Era o bar mais caro de Munique e era preciso saber falar várias línguas”, recorda.

O trabalho nunca a assustou. Considera-se, aliás, uma pessoa profundamente disciplinada. “Acordo às 06h00 da manhã e deito-me às 22h00. Luto para que todas as pessoas tenham direito ao trabalho, não ao subsídio de desemprego”.

 

 

Aos 12 anos, quando pediu aos pais uma lambreta e a mãe lhe respondeu que, se queria concretizar a ideia, teria de trabalhar para isso, arregaçou as mangas e foi trabalhar para um centro comercial. Uns meses depois o resultado estava à vista. “A minha mãe ia desmaiando quando cheguei a casa com o dinheiro para a motoreta”, recorda, entre risos.

Hoje, Raquel Varela, professora universitária e investigadora no Instituto de História Contemporânea, confessa que o estudo do trabalho fez de si uma pessoa diferente: “Tenho cada vez mais consciência da importância e do respeito por quem trabalha. Somos altamente dependentes do trabalho uns dos outros e o desrespeito que se tem por isso é uma das coisas que mais mexe comigo”.

A investigadora, que assume ter tido sempre “a ousadia de escolher temas que incomodam, mas que levantam questões absolutamente fundamentais”, procura, atualmente, a partir do seu trabalho, compreender o passado não apenas para viver o presente, mas, sobretudo, para transformá-lo.

É preciso mudar aquilo que está mal e temos que usar instrumentos do passado para isso.

“Vivemos num individualismo hedonista pós-moderno em que as pessoas estão permanentemente convencidas de que aquilo que fazem foi porque decidiram, individualmente, fazer. O nosso grau de decisão individual é, na realidade, mínimo. Somos altamente constrangidos por necessidades materiais, de sobrevivência, intimamente relacionadas com o trabalho. Somos altamente condicionados. O número de coisas que fazemos por decisões individuais é muito reduzido, sobretudo na sociedade capitalista, onde a nossa sobrevivência está ameaçada quase permanentemente.”

 

Compreender o passado e as pessoas, nas “suas lutas, nas suas grandezas e nas suas misérias”, é, pois, a tarefa a que se dedica, diariamente, Raquel Varela. Com projetos internacionais um pouco por todo o mundo e a trabalhar, em território nacional, com um grupo de mais de 40 investigadores, a historiadora conta-nos que um dos maiores desafios continua a ser “que as pessoas tenham noção da sua própria força, do seu papel na História.”

É preciso entender, como nos recorda, que não há nenhum direito adquirido, foram todos conquistados: “As pessoas acham que o Estado Social é uma dádiva, o Estado Social não é uma dádiva, é uma conquista da Revolução do 25 de Abril. O Serviço Nacional de Saúde não foi criado em 1979, foi criado em 74/75 quando os médicos ocuparam e geriram os hospitais”.

A consciência de que as “novas possibilidades que hoje se abrem partem do que já existe”, e de o que somos depende muito daquilo que fomos, é um dos pilares centrais do trabalho da mulher que revolucionou o modo como hoje olhamos para o 25 de abril.

Autora de A História do Povo na Revolução Portuguesa, Raquel Varela é também responsável por uma mudança de perspetiva face à revolução: “Durante 40 anos prevaleceu a tese de que o Estado estava em disputa na revolução portuguesa. Este livro vem provar qua havia dualidade de poderes – um poder fora do Estado contra o Estado. Não é o último grito, não é a última palavra, mas acho que avançámos muito na compreensão do que é o Estado e a sociedade”.

Naquela que considera ser a sua obra de referência, a historiadora apresenta uma rigorosa investigação que ambiciona dar voz aos que a não tiveram, aos rostos invisíveis e anónimos da grande massa popular que, segundo Raquel Varela, também fez a revolução portuguesa.

Quatro anos volvidos após a publicação do livro, a investigadora, que mudou a forma como olhamos para o 25 de abril, confessa ter-se também deixado olhar pela revolução:

O estudo da revolução portuguesa marcou profundamente a minha personalidade. Contribuiu para que eu tenha hoje uma visão mais feliz e mais otimista da vida.

Os projetos, esses, acumulam-se em cima da secretária a uma velocidade impressionante. No dia 2 de junho apresenta ao mundo Breve História da Europa, um novo livro sobre o século XX. Seguir-se-á um estudo nacional sobre burnout nos professores, um estudo mundial de História do Trabalho na Indústria Naval, um projeto sobre a História do Serviço Médico à periferia, a tradução da sua obra para mais duas línguas e, em 2019, espera fazer sair um novo livro sobre a revolução portuguesa.

O relógio de Raquel Varela não pára. Quando questionada como consegue fazer tanto em tão pouco tempo, a resposta é perentória: “Saber trabalhar em equipa é fundamental. É preciso saber gerir conflitos, saber dizer que sim e saber dizer que não, saber recuar e saber avançar. Não se pode ser individualista nem criar falsos consensos. É um equilíbrio complicado, mas muito gratificante”.

Equilíbrio, esse, que Raquel Varela tenta manter também em casa. Com dois filhos gémeos, com 13 anos, conta-nos que “a maternidade é um desafio permanente”. A sua função como mãe passa, como nos adianta, por “garantir que eles vão ganhando autonomia e independência” pois, garante, só assim poderão ser felizes. “Isso implica também uma luta contra mim própria, porque temos sempre medos, receios, dependências…”

 

Confessa-se profundamente dedicada à família e acrescenta que, se amar é um verbo, então, não se pode amar platonicamente. É preciso dedicar-se e pensar como fazer os outros felizes.

“Um dia perfeito para mim implica acordar cedo, namorar, fazer o pequeno-almoço com os miúdos, passearmos no campo e acabar o dia em família a rirmo-nos”. Revela-nos que, com uma agenda preenchida, isso nem sempre é possível, mas, por vezes, é fundamental “fecharmos a chave do trabalho e das responsabilidades”.

Com os filhos e com o marido, Raquel Varela procura dar sentido, todos os dias, à palavra liberdade. “Passeamos muito pelo campo, fazemos férias na montanha, vamos para os Pirenéus e fazemos desportos radicais todos juntos”.

Nos momentos de recatamento lê romances, contos e poesia.

Embora se confesse profundamente apaixonada por aquilo que faz, Raquel lamenta, porém, o ‘ambiente medieval’ que se vive no interior das instituições de ensino superior em Portugal: “O problema da universidade não é só a precariedade (que é um problema gravíssimo) mas também a proteção medieval de quem está lá dentro. As universidades têm um problema de endogamia, garantida por uma seleção medieval, e isso, no limite, leva à sua decadência”.

Sobre a academia portuguesa, Raquel Varela, sempre sagaz, deixa a crítica: “As pessoas estão permanentemente ameaçadas, em competição, com dificuldades em trabalhar em equipa”.

A inveja é o sentimento mais pobre que existe no meio universitário. O talento dos outros deve suscitar-nos admiração e não inveja. Isso é o que fazem as pessoas saudáveis quando veem alguém melhor. Nos meios universitários de países pequenos é o contrário. O brilhantismo dos outros suscita-nos medo, inveja e sentimentos horrorosos, quando nos devia suscitar admiração.

Quando questionada sobre uma resolução para o problema da endogamia, a historiadora confessa não ter uma resposta. Garante, no entanto, que, certamente, a situação “não se resolve impedindo os precários de dar aulas nem continuando com concursos medievais”.

Vai ainda mais além, assegurando que, quer no meio universitário quer fora dele, “não respeitamos quem trabalha no país. Pagamos salários miseráveis, não damos condições de trabalho democráticas para que as pessoas possam inovar, ter autonomia, crescer e criar. Estamos permanentemente a bloquear a criatividade com estes métodos de gestão hierárquicos e brutais. E isso é inaceitável”.

Inaceitável é, também, segundo a opinião da professora universitária, o atual quadro de precariedade que se vive na investigação científica. “A investigação é uma maratona. A investigação não é compatível com a sucessiva ameaça de desemprego, com projetos de curta duração. Isso é compatível com a acumulação de capital, mas não é o que deve fazer funcionar uma sociedade. Capital, capital, mais capital…”

 

A segurança é um valor primordial. Se não temos filhos por 3 meses porque havemos de ter contratos por 3 meses?

Numa era em que, como acrescenta, “os juros ganharam uma dimensão sacralizada”, a investigadora não consegue deixar de se questionar: “Como é possível que uma pessoa não tenha direito ao trabalho, direito à sua dignidade, à sua sobrevivência, e, depois, os juros sejam intocáveis?”. “Que se lixem os juros”, conclui.

Conhecida por manter posições fortes em relação a temas fraturantes, Raquel Varela, que, por diversas vezes já sentiu na pele o confronto direto com a sociedade e com o poder político, garante que uma das suas grandes qualidades é ter uma grande capacidade para ouvir o contraditório.

“Não acredito numa academia composta por um conjunto de pessoas que pensam todas da mesma maneira. Não acredito na vida humana assim, não acredito nos partidos políticos assim, não acredito nos governos assim. Não podemos nunca ter medo de debater as nossas ideias. O contraditório é um pilar da liberdade.”

Quanto à profissão que escolheu para fazer vida, a historiadora portuguesa garante ter um papel a cumprir: “a sociedade investiu em nós para sermos investigadores e é nossa obrigação sermos claros, sucintos e fazer compreender aos não-especialistas o que é que nós fazemos. É um ponto de honra”.

Confessa que tentar colocar em duas frases no Facebook o que investigou durante 6 meses não é fácil, mas, garante, que esse é o seu dever – “é aquilo que devolvemos à sociedade”.

Sociedade essa, pela qual se revela completamente apaixonada: “Sempre gostei de pessoas. Adoro gente. Acho a Humanidade um desafio e gosto de entender os comportamentos humanos, as relações…  Fascina-me descobrir os raros momentos na História em que as pessoas foram maiores do que elas próprias através da coragem coletiva de enfrentar os poderes instituídos.

Esse, aliás, é o repto que nos deixa Raquel Varela, a trabalhar há mais de 20 anos com ciência fundamental, com “o subterrâneo” que, embora não seja “visível cá fora” e não tenha aplicação imediata, é, como acrescenta, absolutamente fundamental para que outros tipos de ciência possam continuar a existir.

Da menina que brincava, em Alcobaça, à beira-rio, trazemos, talvez, de Oeiras, mais uma lição de liberdade. Raquel Varela fala com voz firme, tom desafiador, convida-nos, a cada passo, a olharmos para dentro, a elevarmos a nossa voz e a não nos adaptarmos ao que está errado. “As pessoas tendem a diminuir o seu papel na História”, revela.

“É preciso perceber que os silêncios é que fazem mossa, as ideias não fazem mossa, as ideias são um ato de liberdade”, conclui.

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*Raquel Varela é atualmente investigadora no Instituto de História Contemporânea, na Universidade Nova de Lisboa. 

©Reportagem: Isa Mestre