Rudolfo Quintas é uma das mais jovens afirmações da arte digital em Portugal. Mas é o seu último projeto que está a dar que falar. O artista português criou uma instalação interativa, direccionada para invisuais, onde cada movimento e cada gesto contam. Ali, tudo é transformado em música e cada cego pode, a partir dos seus movimentos, criar, através do corpo, a sua própria melodia – única e irrepetível.

Rudolfo Quintas tem 37 anos e é um hoje um dos nomes mais proeminentes da arte digital em Portugal. Mas é o seu mais recente projeto que está a dar que falar. Para o artista, que confessa ter «um lado muito sensível e emocional» na forma como quer acrescentar coisas ao mundo, trabalhar, através da arte, com pessoas cegas, tornou-se, como ele próprio explica, um imperativo. «Quando vi aquela pessoa cega a experimentar a peça e, de repente, a transformar-se ali dentro, percebi, imediatamente, o impacto que este trabalho podia ter, percebi que tinha de continuar».

Para chegar a este projeto, onde cada gesto e cada movimento do utilizador correspondem a um som que ajudará, de acordo com a sua movimentação no espaço, a gerar uma ‘música’ única e irrepetível, o artista português teve como ponto de partida uma ideia principal: «E se a obra dependesse de nós? Da nossa informação? Dos nossos dados? Da nossa presença? Do nosso diálogo com ela…?».

Foi assim que nasceu Présence, a primeira instalação sonora, criada em 2014, e dada a conhecer ao público, entre outros espaços, no Adamastor Studios, em Lisboa.

A proposta era, aparentemente, simples: convidar o visitante a entrar dentro de um espaço geométrico delimitado no qual a sua expressão corporal, ou seja, os seus gestos e os seus movimentos, seriam convertidos em som. O resultado traduzir-se-ia na criação de uma composição inédita a partir da coreografia espontânea de cada corpo na interação com a obra.

No entanto, o projeto foi mais além daquilo que se previra inicialmente. Quando em março de 2015 Rudolfo Quintas visita a Harvard Medical School, em Boston, para uma das suas estadias artísticas no laboratório de Tom Kirchhausen, renomado cientista internacional, surge a ideia de alargar o espectro desta peça artística e convertê-la num trabalho de investigação com invisuais.

«Lembro-me que um dos cientistas, ao experimentar a peça, fechava os olhos. No final, disse-me que eu devia experimentar aquilo com pessoas cegas».

Passado um ano, Rudolfo Quintas iniciava uma nova fase do projeto. Queria estudar a fundo o modo como corpo, som e espaço se relacionam, avaliando as distintas percepções sociais e cognitivas que os cegos têm da realidade.

Para isso, e também por isso, conta-nos que tentou perceber o que era ser cego:

Fiz experiências em que ocultei a visão, fui jantar fora cego, desenvolvi amizades com pessoas cegas…e só nessa partilha consegui perceber como é que eles se relacionam com os outros, que medos têm….

Para isso, e também por isso, conta-nos que tentou perceber o que era ser cego: «fiz experiências em que ocultei a visão, fui jantar fora cego, desenvolvi amizades com pessoas cegas…e só nessa partilha consegui perceber como é que eles se relacionam com os outros, que medos têm…».

A pesquisa devolveu os seus frutos. Rudolfo Quintas percebeu que a falta de visão trazia uma consequência igualmente preocupante: «Percebi que estas pessoas tinham o corpo muito preso». Começou, então, a pensar diversas formas de as libertar através da sua arte.

Conta-nos que, numa fase inicial, trabalhou com um grupo-piloto de três pessoas que lhe permitiram ter novas ideias e chegar a novas formas de pensar o corpo e a composição do som.

 

 

A essas três pessoas seguiram-se muitas outras. Palavra passa palavra, e de Lisboa Rudolfo Quintas saltou para Aveiro e para Coimbra onde, trabalhando com as comunidades locais de invisuais, deu a conhecer Darkless, o trabalho que motiva esta reportagem.

Descrevendo esta performance sonora, levada a cabo pelos gestos e pelos movimentos dos invisuais, como uma «experiência muito bonita», o artista não tem reservas em afirmar que está a transformar a vida das pessoas cegas através deste trabalho.

Estou a contribuir para a expansão do imaginário e da relação que estas pessoas têm com o corpo, com uma experiência artística e sensorial que lhes devolve mais confiança neles próprios.

Experimentar Darkless não tem requitos de admissão. É aparecer e estar disposto a criar. Rudolfo Quintas confessa que são necessários apenas dois dias de trabalho para que alguém seja capaz de compor a sua própria música, no interior da instalação.

«Ao fim de muito pouco tempo, a pessoa, que chega ali com pouca ou nenhuma relação com a criação, percebe que compor é uma experiência que a torna muito mais rica e humana».

Os resultados, esses, estão à vista de todos. «Tenho tido um feedback muito positivo do público.

 

Tenho pessoas a dizer que foi das melhores experiências que tiveram na vida, que o Darkless as despertou para uma relação mais emotiva com o corpo e para uma vida emocional mais rica.

Quando questionado sobre a possibilidade da sua peça artística poder vir a funcionar como uma terapia na qualidade de vida e no entretenimento das pessoas cegas, Rudolfo Quintas, deixa algumas pistas para pensar o futuro:

«A minha peça trabalha questões emocionais, de segurança, questões cognitivas – como dar atenção ao som – trabalha ao nível emocional e a própria noção meditativa – o estar presente, o escutar, a localização no espaço, a relação do corpo com os gestos e com o som. Promove um exercício de criatividade onde o utilizador compõe com o corpo e com o gesto».

Para o artista português que, aos 16 anos, numa visita a Paris, descobriu a paixão pela arte digital, o projeto Blind Sounds (que reúne todas estas peças artísticas),  junta, também, «o mundo linear e o mundo não linear».  Permite, segundo o criador, «pensar essa coisa de ‘buraco negro’, um espaço onde nada existe e revertê-lo para um espaço onde tudo existe, onde nós somos o centro de todas as possibilidades».

 

Rudolfo confessa, porém, que «sentir a felicidade daquelas pessoas, o seu sorriso, o seu entusiasmo», vale tudo. «Quando deixamos de contemplar apenas, para que o nosso comportamento passe a ser a beleza da peça, tudo muda. É o nosso comportamento que define a beleza da peça. E isso é único».

Único também é, em Portugal, um projeto desta índole. Rudolfo Quintas é o primeiro artista português a trabalhar com conteúdo original direccionado para invisuais e não rejeita a hipótese de poder vir a trabalhar com outras minorias: «testei com pessoas com Trissomia 21 e houve reacções incríveis. Houve professores que levaram os miúdos e ficaram espantados com o facto de eles que, normalmente, são tão fechados, de repente, terem percebido, ali, a sua relação com o corpo. Foi muito forte».

Para o futuro, o artista português projeta continuar a trabalhar na interface entre artes e ciência e adianta que artistas e cientistas têm muito mais em comum do que possam imaginar: «Por vezes trabalhamos com ferramentas e processos muito idênticos. Quando alguém vê uma peça minha vê som, vê imagem, vê um corpo…Quando se vê o resultado de uma pesquisa científica vêem-se umas imagens, uns papers, uns vídeos…mas o que está por detrás é exatamente o mesmo – algoritmos, tracking, análise».

Compor música para um corpo é uma forma de refletir sobre o mundo.

Um mundo paralelo, que Rudolfo Quintas garante partilhar uma paixão em comum: a vontade do novo conhecimento.

É por ela que o artista português promete continuar a criar. Expandir a rede e chegar aos profissionais de saúde ligados ao campo da visão é o próximo passo. Com ou sem apoios, o jovem criador, que garante querer usar o digital como o pintor que pinta uma tela, assegura que o caminho é por ali. Até porque, como conclui, «estou a compreender melhor o impacto do que é compor música para um corpo. É um trabalho muito gratificante, uma forma de refletir sobre o mundo.»

 

 

 

*Rudolfo Quintas é atualmente investigador no Centro de Investigação em Artes e Comunicação, na Universidade do Algarve. 

©Reportagem: Isa Mestre

©FotoPrincipal: Observador