Aos 6 anos Cláudia Florindo queria ser astronauta, aos 27 iniciou o estudo de um gene humano desconhecido, descobrindo que é um gene fundamental no processo de divisão celular, que está hoje em fase de ensaios clínicos para o tratamento da infertilidade e cancro. Pelo meio passou milhares de horas ao microscópio, contou “histórias de células” como quem conta histórias da carochinha, e continua a acordar o marido às 04h00 da manhã para lhe contar as aventuras e desventuras de um dia no laboratório.

A conversa começa de modo animado. Com um sorriso nos lábios, Cláudia Florindo, microscopista e investigadora independente, a desenvolver carreira no Centro de Investigação em Biomedicina, no Laboratório de Cancro e Biologia Celular, dirigido por Álvaro Tavares, informa-me que só tem mais 10 minutos: “tenho de ir semear células”. Parte da sua vida é, como nos conta, regida pelos horários do laboratório. Traz ao pescoço um cronómetro que não a deixa mentir.

Entre ir buscar os três filhos à escola e conjugar todas as suas atividades com uma vida profissional atribulada, Cláudia confessa-nos que há, do lado de cá, uns “meninos” extra que lhe exigem, diariamente, o máximo de atenção, empenho e dedicação possível. São conjuntos de células que, tal como uma criança pequena, lhe tiram, muitas vezes, horas de sono.

É preciso cuidar delas. Não te esqueças que isto é biologia, não é matemática, não é engenharia nem física”. Como adianta: “tudo isto implica não só muitas horas ao microscópio como muitas técnicas complementares para garantirmos que a ciência que fazemos está certa. No fundo é como estares a observar um coxo. Estás a olhar para o pé mas tens de ver se ele coxeia, como é que ele coxeia, tens que ver se é do pé, se é da anca ou da coluna. Tens de o ver como um todo”.

E foi precisamente para ver o mundo como um todo, um mundo com coisas nas quais “queria mexer” que a investigadora, que aos 6 anos sonhava ser astronauta, tomou, aos 18, a decisão de mudar-se do curso de Física para o de Química Aplicada. “Queria pôr uma hipótese, fazer experiências, tirar conclusões e chegar a novos problemas, e, em física teórica isso não era possível”.

Das galáxias aos mistérios da biologia, o trabalho de Cláudia Florindo e do grupo de investigação de cancro e biologia celular passa hoje por compreender o ciclo celular, e, em particular que genes são importantes para a divisão celular.

Assumindo que doenças como o cancro são uma consequência da desregulação da divisão celular, a investigadora do CBMR, para quem “o conhecimento vale pelo conhecimento”, procura estudar, particularmente, a mitose, ou seja, o momento em que as células se dividem em duas.

Como nos explica, compreender esta fase do ciclo de vida de uma célula pode oferecer importantes pistas para controlar determinados fenómenos:

Se conseguirmos perceber exatamente como é que as células dividem conseguimos perceber como é que podemos controlar essa divisão.

 

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