Conheça a história de Maria Teresa Dinis, a  primeira bióloga portuguesa a chegar a Moçambique. Os espanhóis garantem que escreveu a “Bíblia” do mar. A investigadora diz que apenas se limitou a “seguir sonhos e aceitar desafios”. No Aquário Vasco da Gama, chegou a ter uma cama para poder trabalhar durante a noite. Em Moçambique, viajava em barcos de pesca comercial, com 17 homens a bordo, e dormia em cima da tampa do porão. O amor pela investigação falou sempre mais alto. 

Nascida em 1945, em Lisboa, se pudesse ter escolhido, à chegada, um destino, Maria Teresa Dinis teria escolhido, certamente, um destino com “vida mar”. Desde que se lembra de se conhecer que o mar exerce sobre si um enorme fascínio. Em Setúbal, onde passou grande parte da sua infância, começou a desenhar-se aquela que define como uma “ligação muito especial”. “Sempre gostei de tudo o que tinha a ver com o mar e soube, desde muito cedo, que queria trabalhar em investigação”.

Pelo caminho, muitos tentaram demovê-la do sonho. Mas, a investigadora, que é hoje considerada como uma das maiores referências nacionais e internacionais em Aquacultura, nunca cedeu.

Como relembra, aos 22 anos, e já licenciada pela Faculdade de Ciências de Lisboa, começou a bater às portas em busca de uma oportunidade no mundo da investigação. A resposta, conta-nos, era, invariavelmente, a mesma: “Toda a gente me dizia: ‘ó, minha senhora, ouça, mas por que é que não vai dar aulas? Tem muito tempo livre, pode ir buscar os filhos à escola, tem tardes inteiras para estar com o marido…” (recorda, entre risos).

Nenhuma das vantagens convenceu a, agora, professora emérita da Universidade do Algarve.

Como nos confessa: ‘A mim, que era um bocadinho revolucionária para a época, esse tipo de coisa não fazia parte dos meus projetos de vida. Eu queria era trabalhar no mar e na investigação’.

Com 23 anos, e sem nunca ter andando de avião, chegaria a tão desejada oportunidade. No então Ministério do Ultramar, Maria Teresa Dinis, integrou-se à Junta Nacional de Investigações Científicas do Ultramar e voou até Moçambique para a primeira de muitas aventuras que a esperariam em território africano.

Em março de 1968, foi a primeira bióloga a juntar-se à missão. Começou a trabalhar em avaliação de mananciais de camarão, usando corantes biológicos para marcar as espécies que, mais tarde, seriam recapturadas. O objetivo, esse, era aparentemente simples: fazer uma avaliação da mortalidade provocada pela pesca e ajudar à gestão dos mananciais.

Recorda com carinho que, em 69, davam “10 escudos a quem recuperava os camarões marcados”.

Para Maria Teresa Dinis, a paixão pelo mar nunca teve um preço. Nem mesmo naquela tarde de Verão, na Baía de Lourenço Marques, quando a penduraram pelas pernas, com uma faca na boca, para ir cortar o cabo da rede que tinha ficado preso à hélice do motor.

Como relembra: “andávamos em missão, num barco sem cabine, e começámos a ver que estava a vir uma ‘sulada’. Estávamos a fazer a última tarefa do dia quando, de repente, o cabo da rede foi à hélice. Quem é que pensa que foi cortar o cabo lá abaixo? Quem era o mais levezinho a bordo? Eu, claro. Então, penduraram-me pelas pernas, com uma faca na boca, e lá fui.”

De volta ao barco, encharcada e cheia de frio, Maria Teresa Dinis, relembra, com um sorriso nos lábios, o gesto do auxiliar da embarcação que, com um copo na mão, lhe disse: ‘tome lá uma coisa para aquecer’.

“Deu-me um copo de aguardente. Quando bebi aquilo ia morrendo. Não conseguia respirar. Ainda hoje me lembro”.

 

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