Conheça a história da jornalista que sobreviveu a uma emboscada no Iraque, perdeu grande parte da mobilidade numa das pernas e continua a acreditar que o jornalismo é para ser feito no terreno. Eis Maria João Ruela, a repórter de guerra a quem nem as balas lhe levaram a vontade de contar.

Maria João Ruela é talvez dos rostos mais conhecidos dos portugueses. A trabalhar há 24 anos como jornalista, nove deles como pivot, muitos foram aqueles que se habituaram a ver na jovem de Aveiro o espelho da segurança, do rigor e da exigência que criar e transmitir informação requerem.

Conhecida por muitos como a portuguesa que, em 2003, passou de mensageira a mensagem, tornando-se notícia por ter sido baleada, enquanto trabalhava como correspondente de guerra, no Iraque, Maria João Ruela confessa que embora o incidente não defina a sua carreira, contribuiu significativamente para moldar a sua personalidade. “Aquilo que me aconteceu ajudou-me a ser uma pessoa diferente, a ser a Maria João que sou hoje”.

Distante já dos tempos em que, junto à Ria de Aveiro, e na companhia dos avós, ‘amanhava’ peixe, cavava batatas e vivia algumas das aventuras e desventuras de uma infância e adolescência plenamente feliz, a antiga diretora executiva da SIC não esquece, porém, os muitos dias passados na sua terra natal.

Habituada ao rumor da grande cidade, na Murtosa, Maria João Ruela aprendeu a ter uma perspetiva mais ampla da realidade, a não se esgotar nas vivências atomizadas de cada um: “A ligação a uma realidade mais rural, diferente da minha, permitiu-me manter-me alerta para um país que não era aquele onde eu vivia e para a existência de realidades que não eram aquelas com as quais eu tinha contacto todos os dias”.

Também isso a definiu, também isso a ajudou a continuar a calcorrear mundo, mantendo, desde aí, a astúcia e ousadia de um olhar curioso feroz.

Na altura o jornalismo não vinha sequer nos planos. Era boa aluna e tinha gosto por estudar. Como nos conta, se havia alguma ‘ponta’ de jornalista em si, tinha a ver, sobretudo com a curiosidade com que encarava o mundo: “Tinha vontade de saber, de conhecer pessoas, de conhecer outras realidades”.

Aos 14 anos apaixonou-se pela literatura, uma outra janela para observar a realidade. O detalhe com que olhava, então, o universo era também o reflexo da paixão pelos livros que Maria João Ruela diz ter adquirido muito por culpa da sua professora de português da época, a quem deixa um profundo agradecimento.

De resto, aliás, nada faria prever que um dia se sentaria num dos lugares mais cobiçados por jornalistas de todas as gerações para dar a conhecer o mundo ao mundo. “Tive amigos, ia às discotecas, fiz uma vida como todos os jovens dos anos 80. Uma vida que, comparada com aquilo que é hoje a realidade dos jovens, talvez fosse mais livre. Com mais limitações, porque não havia grande tecnologia, mas com uma proximidade diferente”.

Com estilo próprio e ar confiante foi com esse mesmo cunho de proximidade que, durante centenas e centenas de noites, Maria João Ruela deu o seu trabalho a conhecer ao país. Da sociedade à justiça, passando pela administração interna, antes de ser pivot fez quase tudo o que havia para fazer no jornalismo. A ‘rua’[1] continua, no entanto, a ser a sua grande paixão.

Para mim o jornalismo sempre fez sentido na rua. Não se pode perder essa ligação ao terreno, a saber fazer jornalismo em diálogo com a realidade”.

Desde 2003 que Maria João Ruela não sai para o terreno. A emboscada iraquiana tolheu-lhe a mobilidade de uma das pernas e retirou-lhe muita da capacidade para trabalhar fora do estúdio. A vontade, essa, porém, permaneceu sempre intacta: “não consigo correr, mas caminho. Não consigo dar saltos, mas dou passinhos”.

Ambiciosa e inconformada por excelência, todos os dias Maria João Ruela tenta superar as mazelas deixadas pela bala que lhe atravessou o corpo. O espírito de superação, porém, já lá estava antes da bala. Tudo começou pelas viagens e pelo entusiamo que, confessa, nos primeiros tempos, era um entusiamo alheio: “o meu namorado tinha uma fixação por montanhismo e tínhamos um casal amigo que também era apaixonado por esse tipo de atividades”.

Começou, primeiro a medo, depois com cada vez menos medo e mais vontade. Cada viagem soava a desafio. Primeiro os Pirenéus, depois os Alpes, mais tarde o Nepal, naquela que confessa ter sido uma das viagens da sua vida.

“No final dos anos 90 decidimos ir os quatro, sozinhos, caminhar durante 15 dias de mochila às costas para o Nepal”, e aquilo que parecia uma loucura tornou-se numa aventura a recordar para toda a vida. “Não tínhamos nada marcado, íamos comendo e dormindo à medida das possibilidades, onde encontrávamos sítio para ficar”. Chegaram a marcar voos que só apanhariam depois de subir montanhas de mais de 5700 metros. O passaporte era carimbado a cada nova experiência e aquilo que, ao início, começaram por ser aventuras, depressa se tornaram em desafios de superação pessoal: “Primeiro íamos a uma montanha, depois queríamos ir à montanha mais alta, e cada vez mais alto, fui viajando atrás desses cumes até que cheguei ao Nepal”.

Para Maria João, viajar passou a ser parte de uma maneira de estar na vida. Sem euro nem voos low cost, não raras vezes saiu de carro de Lisboa e atravessou a Europa em busca de novos horizontes. Na carreira, não foi diferente. Os desafios acumularam-se e os cumes foram sendo atingidos.

Por isso, quando aos 33 anos surgiu a oportunidade de acompanhar a comitiva portuguesa da GNR para a sua primeira missão num cenário internacional de guerra, a escolha pareceu-lhe natural: “Para mim fazer jornalismo era estar no terreno, estar onde as coisas acontecem. Nesse ano, pela primeira vez, as forças de segurança portuguesas iam estar lá e eu, que os acompanhava de perto por cá, naturalmente quis estar presente, num cenário que era necessariamente diferente daquele onde eu habitualmente trabalhava”.

Quando lhe pergunto o que a levou ao Iraque, os olhos de Maria João Ruela voltam a brilhar, como se regressasse à noite antes da partida:

Era uma vontade que eu tinha, de fazer uma reportagem de guerra. Sabia que corria riscos, mas assumi esses riscos. Era a minha vontade e, portanto, lá fui toda contente”.

No dia da partida o entusiasmo esfriou. Na televisão noticiava-se um brutal atentado que resultava na morte de 19 italianos no local para onde Maria João Ruela se dirigia.

Na mochila, a mesma que usara para tantas outras viagens, um capacete, um colete à prova de bala, canetas e blocos de papel denunciavam, à partida, que aquela seria uma viagem bem diferente de todas as outras. Para adoçar a amargura da guerra, Maria João Ruela levou rebuçados. Do Iraque, trouxe, porém, uma sensação agridoce.

Os confrontos com a iminência da morte, com a deficiência, com as vicissitudes da vida, fizeram de si uma pessoa necessariamente diferente. Na bagagem, para além de uma bala que testemunha os acontecimentos daquele 14 de novembro de 2003, Maria João Ruela traz algumas mazelas e uma história para contar.

“Foi um dia que começou pessimamente e se alguma vez voltar a acontecer, acho que não vou mesmo sair da cama. Nunca me atraso para nada e nesse dia não ouvi o despertador. Quando acordei já estava para lá da hora que tínhamos combinado sair”.

No entanto, não foi apenas o atraso da jornalista que saiu fora do que estava previsto. Todas as outras condições se viram subitamente alteradas. Aquilo que os jornalistas portugueses tinham dado como garantido – que iam integrados na coluna militar da GNR, com escolta de militares ingleses – caiu por terra à primeira contrariedade, com a chegada da informação de que os militares ingleses deixariam de fazer o transporte de civis por não poder assegurar a sua segurança. Alugar um jipe apresentou-se como a única alternativa para atravessar a estrada entre o Kuwait e a cidade iraquiana de Bassorá. Maria João Ruela, Rui do Ó e Carlos Raleiras fizeram-se à estrada.

Cerca de 10 minutos depois de passarem a fronteira, começa o episódio que a jornalista portuguesa descreve como tendo extrapolado os limites do real: “Tudo aquilo, a determinada altura, me parece que deixou de ser real. Parecia que estava a viver uma espécie de filme onde eu era a protagonista. Aqueles momentos em que houve uma perseguição, com disparos, tudo isso me pareceu fora da realidade, mas era mesmo o que estava a acontecer.”

As memórias acumulam-se e dão lugar a um flash cinzento que intercala a vida colorida de Maria João Ruela. Como um carro que ultrapassa, furiosamente, pela berma da estrada ainda é a imagem de um homem a rir-se, com um dente de ouro e uma arma na mão, aquela que assalta a memória da jovem jornalista.

“Passaram-me uma série de coisas pela cabeça. Mas a verdade é que depois de tudo ter corrido mal, tudo correu bem”. Depois de terem sido abandonados à beira da estrada, Maria João Ruela e Rui do Ó foram resgatados por um grupo de iraquianos, foram levados para uma espécie de centro de saúde, local a partir do qual o câmara da SIC procurou a ajuda de uma patrulha inglesa, que prontamente viria ao encontro da jornalista portuguesa, operando-a e salvando-lhe a vida. “Fui transferida, fui operada, não morri. Fiquei com uma história para contar”.

E foi isso mesmo que fez questão de fazer assim que acordou da anestesia, entrando, em direto, na emissão da SIC. Do outro lado, a voz de Martim Cabral, uma figura por quem confessa ter um carinho muito especial, guiava o direto. Apenas um ano depois Maria João Ruela conseguiu voltar a ouvir o que tinha dito naquele dia.

Numa terra que descrevia, então, como “uma terra de pistoleiros”, a jornalista vivera um dos momentos mais difíceis da sua vida. A memória desses dias, não lhe assombra, porém nem o presente nem o futuro: “Não é uma coisa que me assalte nos meus sonhos nem que me cause pesadelos. No ano seguinte ao acidente a minha vida ficou muito perturbada, nem que fosse pela constatação da minha marcha ter ficado muito afetada e de ter passado mais de um mês internada no hospital, tendo tido uma recuperação física muito dura. Mas aceitei esse facto e vivo bem com isso.”

Acredita que o episódio lhe trouxe menor tolerância para com os outros e aumentou a sua exigência como pessoa e como profissional.

Filha de um oficial da Marinha Mercante, Maria João Ruela percebeu desde cedo, a exemplo de algumas referências femininas da família, como a mãe e a avó, que era preciso segurar com firmeza as rédeas da vida.

Hoje, quando olha para trás e vê a jornalista que começou na SIC, com apenas 21 anos, reconhece uma Maria João “mais inocente, mais deslumbrada, mais crente na bondade das pessoas”, mas igualmente apaixonada pela televisão e pelas redações.

Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, Maria João Ruela, confessa que nem sempre o coração pendeu para o mesmo lado da balança, enamorando-se, em primeira mão, pela publicidade, área na qual chegou mesmo a exercer. “Havia um glamour em torno dos anúncios que hoje já não existe. Havia aquela mística, um mundo que nós, enquanto jovens, estávamos a descobrir”.

O jornalismo viria depois, na altura em que abrem os concursos para a primeira televisão privada em Portugal e o nome de Maria João Ruela começa a ecoar, discretamente, pelos corredores da então estação de Carnaxide.

Prestou provas eliminatórias e ficou como estagiária, em 1992. Daí até abril de 2016, não mais abandonaria a casa que a viu crescer. Um convite de Marcelo Rebelo de Sousa, já como Presidente da República Portuguesa, desafiá-la-ia a mudar de planos, trocando a SIC pelo cargo de Assessora para os Assuntos Sociais, Sociedade e Comunidades Portuguesa, no atual Governo.

Inquieta e desacomodada por natureza, Maria João Ruela, que confessa não ser capaz de viver sem se colocar desafios e tentar ultrapassar obstáculos, encontrou no executivo uma agradável surpresa: “Se o jornalismo político foi uma dimensão que nunca me interessou é curioso como, ao ter mudado de funções, e estar agora nos bastidores de um órgão de soberania, me fez olhar para a política de uma maneira diferente daquela que eu olhava enquanto jornalista”.

A assumir um trabalho, que confessa, não andar muito longe daquele que desenvolveu durante anos, Maria João Ruela acompanha agora, enquanto assessora, toda a área social, com olhar atento sobre todas as realidades – desde as comunidades migrantes, à problemática da pobreza, passando pelo envelhecimento.

Deixou os ‘grandes palcos’, mas nem por isso deixa de assumir-se como figura central de uma carreira que continua a desenvolver-se e a ramificar-se, atingindo novos domínios do conhecimento.

A realizar um doutoramento na área do desenvolvimento e da sustentabilidade, Maria João Ruela acredita que o novo projeto a pode ajudar a sofisticar “a maneira de pensar, de analisar e de chegar à informação”.

Confessando que continuará sempre a ver o mundo com o olhar de jornalista insiste, porém, em realçar que, nesta profissão, existem várias dimensões da realidade e é preciso aprender a não dizer ‘não’ logo à partida.

É preciso questionar. Gostava de continuar a ver o jornalismo no seu lado mais romântico. Gostava que o jornalismo se visse a si próprio dessa maneira. Mas, infelizmente, creio que não é esse o caminho para onde a realidade nos leva”.

Tendo presenciado, como profissional, acontecimentos históricos como a morte da princesa Diana, o assassinato de Fortaleza ou a investigação do caso Casa Pia, Maria João Ruela admite as consequências e o prejuízo que a pressão dos meios digitais e das televisões 24h trouxe ao jornalismo: “É preciso dar a notícia rapidamente. Os jornalistas passaram a estar mais sentados à secretária do que na rua a fazer reportagem e, portanto, essa dimensão de questionar, de procurar e de ‘escavar’, foi-se perdendo no computador”. Hoje, como nos explica, ‘escava-se’ nas redes sociais e cita-se como notícia. “Perdeu-se um espírito que eu não gostava que se tivesse perdido”.

Maria João ainda é do tempo em que se podia conseguir ‘guardar’ uma notícia até ao fim-de-semana. Hoje, como nos assegura, seria impensável: “Tem-se uma informação e ela tem de ser avançada porque se não formos nós, são os outros. E, às vezes, nesta guerra do mediatismo e do imediatismo, perde-se a essência do que é esta profissão”.

Maria João Ruela não a esquece, não a poderia esquecer. Foi, aliás, a essência que a levou de Paris a Hyde Park, para ouvir 1 milhão de pessoas cantar Candle in the Wind, no dia da morte de Diana. O momento arrepiou-a, como a continuam a arrepiar todos os grandes momentos vividos em jornalismo.

Na sua memória permanece ainda a entrevista realizada com Luís Miguel Militão, homem conhecido como o ‘monstro de Fortaleza’ que, em agosto de 2001, assassinou a sangue frio seis empresários portugueses. Maria João entrevistou-o de igual para igual, sem preconceitos. “De repente apercebemo-nos como somos todos humanos, e como a nossa dimensão humana nos atira para realidades tão distantes”.

Viveu isso em grandes e pequenos eventos, a entrevistar pessoas que lhe deram respostas desconcertantes e a fizeram ficar a pensar. Porque o jornalismo é isso mesmo. Viver e sentir pelo olhar do outro.

Aos que agora começam, Maria João Ruela, deixa uma mensagem: “Sejam honestos convosco próprios, esforcem-se e trabalhem, porque só se consegue fazer coisas com trabalho. Às vezes há uma dose de sorte, mas a sorte também se proporciona com investimento”.

Maria João Ruela nunca baixou os braços, nunca desistiu de tentar. Apresentou, coordenou, foi repórter, apresentadora, pivot de televisão. Em 2003, e depois de Sarajevo, chega aos grandes campos de batalha. Regressa de avião, baleada, mas sempre de microfone na mão. Quem lhe tira a rua, tira-lhe tudo. Mas, a Maria João Ruela, nem uma bala lhe poderia tirar a vontade de contar.

[1] Termo usado na gíria jornalística para se referir a trabalhos feitos no terreno, em contacto direto com o público.