Conheça a história do jornalista que dava aulas de inglês a sargentos e oficiais e hoje luta para que a ciência chegue ao público e seja compreendida como forma de pensamento e instrumento para o exercício da democracia. Como comunicador de ciência e “autenticador de informação” António Granado acredita que o jornalismo tem vindo a perder importância e que é cada vez mais difícil fazer jornalismo independente, mas deixa um mote para reflexão: “quando me dizem que o jornalismo não sobrevive sem isto, pergunto se vale a pena sobreviver com a espinha dobrada.”

António Maria Salvado Coxito Granado. Na Escola Militar de Eletromecânica, em Paço de Arcos, este bem podia ser o nome de um Primeiro Sargento da Companhia nº 22. Não era. Do lado de lá, o agora jornalista e comunicador de ciência, António Granado, vestia a pele de professor e ensinava a sargentos e oficiais as primeiras palavras em língua de Sua Majestade.

Assim começa a aventura daquele que é hoje um dos jornalistas de ciência mais reconhecidos em Portugal.  Ao jornalismo chegou, aliás, como nos conta, muito por culpa do tempo livre que as aulas lhe deixavam: “Eu sempre tinha tido algum interesse em jornalismo e como estava a fazer pouquíssima coisa, porque dava as minhas aulas e vinha-me embora, decidi inscrever-me no curso de Ciências da Informação, na Universidade Católica Portuguesa, à noite”.

Formado em Línguas e Literaturas e professor de Português no ensino secundário, António Granado abraçou dois anos de um curso que lhe permitiu ingressar diretamente na área do jornalismo. Da Católica seguiu para a RTP, onde estagiou durante meses, e, mais tarde, para o Público, casa que o acolheu por mais de 20 anos.  Também lá começou como estagiário, à semelhança dos restantes 25 colegas a prestar provas, de entre os quais se destacam nomes como Manuel Carvalho[1], Luís Pedro Nunes[2]  ou Rui Cardoso Martins[3].

 

Do grupo final, composto por alguns jornalistas profissionais recrutados a outros órgãos de comunicação social e 25 novatos, viria a sair uma equipa que abriu caminho em algumas áreas pioneiras para a época: como a área do jornalismo de Ciência.

E se hoje António Granado acredita que os jornalistas são relativamente bem vistos e acreditados pela sociedade, conta-nos, no entanto, que nem sempre foi assim. Em tom humorístico e, simultaneamente, nostálgico, o atual professor da Universidade Nova de Lisboa, recorda que, nos primeiros tempos, havia académicos que simplesmente não falavam com jornalistas. “Um professor catedrático não ia baixar ao nível de falar com um jornalista. O que é que um jornalista poderia saber sobre o assunto? Não falavam, não respondiam a telefonemas. Ponto final”. António Granado confessa que quase se conseguia ouvir o barulho das pessoas a fugir pelos corredores, tal era o pânico.

Sempre que ouviam o nome de um jornalista achavam que era para publicar um escândalo”

Sobre este tema António Granado recorda particularmente uma conversa tida em 1996 com o então diretor do Centro de Neurociências de Coimbra. “Quando os centros foram avaliados pela primeira vez pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), fui fazer uma reportagem a Coimbra. Falei com o diretor do CNC, que me deu uma entrevista extraordinária, mas que, no final, me disse que em 15 anos de carreira era a primeira vez que estava a falar com um jornalista. Tinha a sensação de que quem falava com jornalistas eram pessoas que não tinham mais nada para fazer. ‘Se as pessoas que andam a falar com jornalistas tivessem artigos científicos para escrever, não andavam por aí a perder tempo’, rematou”.

Hoje, como nos conta, a realidade é completamente diferente e, por isso mesmo, António Granado, citando Gabriel Garcia Márquez, não tem reservas em afirmar que não só o jornalismo é a melhor profissão do mundo, como anuncia o escritor, como o jornalismo de ciência é a melhor profissão do mundo. “Aqui estamos sempre a aprender. De cada vez que temos de escrever sobre uma coisa nova, somos obrigados a fazer um papel absolutamente crucial: o de fazer perguntas. ‘Não percebi, explique outra vez. Não percebi, explique outra vez. Desculpe, ainda não percebi, explique outra vez’”. É que, para o antigo professor do ensino secundário, há uma característica ímpar que todo o jornalista deve possuir: 

O jornalista tem de aprender a fazer perguntas e não se pode envergonhar disso. Porque para conseguirmos explicar às outras pessoas precisamos primeiro de entender”.

A lição, essa, ficou-lhe do seu Mestre – José Vítor Malheiros – “um editor absolutamente excecional”, com quem garante ter aprendido praticamente tudo do que hoje sabe sobre jornalismo. “Lembro-me de ele me dizer: ‘se tu não perceberes não escreves uma linha sobre o assunto’. Por isso, quando ele me dizia: ‘António, não estou a perceber nada do que está aqui escrito’, eu já sabia que era para escrever de novo”.

Na redação, que embora distante no tempo, António Granado parece nunca ter deixado, continua a ouvir a voz do seu primeiro leitor: “O que é isto da constante de Einstein? ‘Ele aqui diz ‘constante de Einstein’, sabes o que é a constante de Einstein? Se não sabes o que é, não escreves. Telefona por favor ao senhor e pergunta-lhe o que é a constante de Einstein e vê se consegues explicar o que é, se não isto não pode ir assim”.

O rigor, fundamento principal do jornalismo, é também ingrediente base de uma das receitas prediletas de António Granado: a comunicação de ciência. “É preciso saber explicar, por palavras mais simples, os conceitos científicos. É preciso compreender como os cientistas chegaram até lá e ver a ciência a funcionar”. Para isso, o jornalista acredita que é fundamental ter a capacidade de “pôr em comum”:

Mesmo pessoas de um alto nível de literacia se não reduzirmos o jargão que utilizamos, não percebem nada do que dissemos. E se isso acontecer não estamos a pôr em comum, não estamos a comunicar.”

Para ilustrar a afirmação, o professor recorda um exercício que costumam fazer com os estudantes de doutoramento dos cursos de comunicação de ciência. Numa das primeiras aulas pedem aos alunos que expliquem aos colegas a sua investigação. “O curioso é como esta simples pergunta e a reação dos colegas transforma a própria mente das pessoas. A verdade é que eles começam a explicar e, quando chegam ao final, das 15 pessoas que ali estão, há 14 que dizem que não perceberam nada”. É nesse momento que o formador aproveita para lançar a seta, direta ao fundo da questão: “Este senhor está a doutorar-se em Física, este senhor está a doutorar-se em Direito, e este está a doutorar-se em Engenharia Mecânica, e nenhum deles percebeu o que você está a fazer. Acha que o problema é deles? Serão assim tão ignorantes?”.

A pergunta estende-se à restante comunidade, como um mote para pensar não apenas a comunicação de ciência, mas também o papel de quem a pratica.

Para António Granado, o paralelo com o mundo do jornalismo é praticamente inevitável. Como afirma: “o jornalista responde unicamente perante os seus leitores”, tal como o comunicador de ciência, que, para além de “ser um autenticador de informação”, não pode cansar-se de fazer perguntas e “tem, ao final do dia, de conseguir explicar tudo ao público”.

Voltando ao jornalismo, António Granado, acredita, porém, que este tem vindo a perder muita da importância e da independência que tinha. “Todas as noites assistimos a coisas tristes nos telejornais. Todos os dias vemos notícias que não seriam notícias em lado nenhum, mas que estão a ser porque alguma coisa aconteceu. É cada vez mais difícil fazer jornalismo independente”.

Sobre o jornalismo de hoje e sobre os profissionais, que afirma, muitas vezes, terem de se sujeitar a este tipo de contingências, António Granado lança uma reflexão:

Se me dizem que o jornalismo não sobrevive sem isto, pergunto se vale a pena sobreviver com a espinha dobrada. Vale a pena sobreviver com uma espinha elástica?”.   

Ciente de que o jornalista está a perder terreno enquanto “autenticador de informação”, o atual docente do Mestrado em Jornalismo lança um alerta: “O jornalista não é um pé de microfone. O jornalista não pode pôr o microfone na frente de um tipo que diz coisas ao calhas. O jornalista tem de ter o cuidado de não ser um megafone, de não reproduzir pela boca o que acabou de lhe entrar pelo ouvido. O jornalista não pode ser um megafone de interesses inconfessáveis. Tem de investigar antes de dizer se é verdade”.

O lema de José Vítor Malheiros permanece atual e volta como uma espécie de mantra: “Tens a certeza? Publica-se. Não tens a certeza, não se publica”.

Acreditando que o jornalismo tem vindo a perder importância muito por culpa dos próprios jornalistas, António Granado mantém-se firme na convicção de que fazer jornalismo passa por um trabalho de fundo que tem na autenticidade o seu maior trunfo. “É aceitável ter um erro em cada 100 notícias. Não é aceitável ter um erro em cada 10. O jornalista tem de ser um autenticador de informação. Não é dar as notícias e depois ir a correr fazer desmentidos”.

Depois de 10 anos de experiência num dos mais relevantes títulos da imprensa portuguesa, o jornal Público, António Granado, que passou por Boston e por Leeds, onde fez um Mestrado e um Doutoramento em Comunicação de Ciência, respetivamente, é perentório em afirmar que “a Ciência é fundamental para a vida em sociedade” e “ter cidadãos informados ajuda as pessoas a fazer melhores escolhas, ajuda a própria democracia”.

É aceitável ter um erro em cada 100 notícias. Não é aceitável ter um erro em cada 10. O jornalista tem de ser um autenticador de informação. Não é dar as notícias e depois ir a correr fazer desmentidos”.

Lutando para que a ciência chegue ao público, para que as pessoas consigam compreender os conceitos e o que se esconde por detrás da grande ‘máquina’ da investigação, o atual professor da Universidade Nova de Lisboa, lamenta, porém, que as instituições portuguesas estejam ainda “muito longe de comunicar ciência”, uma vez que “as redes sociais são usadas mais como instrumento de marketing do que de comunicação de ciência”. 

Tendo passado pela EXPO’98, onde trabalhou no guião do Pavilhão do Conhecimento, e tendo exercido, mais tarde, o cargo de editor de multimédia, na RTP, António Granado confessa que “alguém que é jornalista nunca deixa de o ser”, mas que o facto de ter estado, entre 1996 e 2006 com duplo emprego – o de professor e jornalista – se tornou, a dada altura, muito cansativo.

Por isso, quando surgiu a oportunidade de abandonar a RTP e dedicar-se completamente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas não hesitou. “Sempre tive o bichinho de ensinar e aprendo imenso com os meus alunos. Tenho o privilégio de ensinar aos melhores alunos de Portugal e continuo a acreditar que fazer profissão daquilo que não se gosta é uma grande chatice”.

Aos seus quatro filhos, que seguiram pisadas completamente distintas das do pai, trabalhando em áreas como a ilustração, o grafismo ou a publicidade, António Granado deu precisamente o mesmo conselho: trabalhar naquilo em que se gosta.

Essa foi, aliás, uma das máximas que orientou a sua vida. Quando em 92 abandonou o jornal Público para abraçar a aventura de estudar jornalismo de ciência no estrangeiro, foi preciso resiliência para enfrentar uma cidade com 18 graus negativos e uma nova forma de estar e de ensinar. 

 Recebia 70 contos por mês, era o único estrangeiro no curso, e tinha três filhos – com um, três e cinco anos – fechados em casa grande parte dos dias.

Hoje, com quatro filhos, mas mais nove netos, António Granado garante ter muito com que se entreter. Por entre ensino e investigação, a coordenação do mestrado em Jornalismo e a cocoordenação do Mestrado em Comunicação de Ciência, fica uma certeza: a de que o caminho na comunicação de ciência ainda agora está a começar e há muitos campos por explorar.

Para trás ficaram as aulas de inglês a sargentos e oficiais, hoje a batalha é outra: “Queremos que as pessoas percebam a nossa ciência. Porque a ciência é uma maneira de pensar. Ali não há argumentos de autoridade. Tudo funciona através da demonstração de que isto é verdade e aquilo é mentira”, e só assim podemos observar o mundo.

Porque, como remata António Granado, “pode haver respostas estúpidas, mas perguntas estúpidas não há. Se eu não percebo pergunto outra vez, e outra, e outra, e outra, até conseguir compreender”.

António Granado acompanhado pelos seus 9 netos.

 

Notas Finais

[1] Atual diretor do Público.

[2] Editor do Inimigo Público.

[3] Escritor.

 

Fotos:

©ICNOVA/Jornal de Leiria/Nova FCSH