Conheça a história de Lucia Santaella, a investigadora brasileira que antecipou o advento do digital no Brasil e ofereceu ao mundo um dos maiores contributos sobre a cultura dos media. Quando em 94 decidiu organizar um debate sobre internet disseram-lhe que isso era ‘apenas’ tecnologia. Hoje, com mais de 50 livros publicados, 500 artigos científicos escritos e mais de 300 teses orientadas, não tem dúvidas em afirmar que “o mundo está demasiado complexo para que a pessoa permaneça fechada e cega na sua ignorância”.

Numa pequena vila do interior do Brasil, em 1954, uma voz irrompe na escuridão: “Maria Lucia, vai dormir, já é tarde”. À mesa, com os mapas de geografia e latim abertos diante do seu olhar pueril, enérgico e curioso, encontra-se Lucia Santaella, atualmente uma das maiores pensadoras da cultura digital, que hoje nos garante ter nascido para isto, “para estudar, pesquisar, viver no meio dos livros. Só dentro de casa tenho mais de 7.000”.

Os minutos, esses, parecem fugir-lhe por entre as mãos, mas Lucia Santaella, que confessa sentir inveja de si própria quando tinha mais tempo para ler, acredita que ainda hoje, arrumados nas estantes, os livros lhe lançam ‘piscadelas’ secretas: “Lúcia, estou te esperando”.

O apelo para o conhecimento repete-se a cada passagem. Com mais de 40 anos de ensino, 50 livros publicados e mais de 500 artigos científicos escritos, há uma certeza que guarda, como mensagem, para as gerações futuras:

Acreditem que vale a pena. Porque, na nossa carreira, quanto mais a gente investe no conhecimento, mais a nossa vida se vai enriquecendo.

É como se fossemos deixando uma herança para nós mesmo, um acervo que vamos guardando e que traz muitas consequências para a vida, para o quotidiano, para a maneira como olhamos o outro, para o tipo de diálogo que temos com ele. A minha vida é esta, nunca pus pé noutras canoas.”

Seguindo o rio do pensamento, Lucia Santaella vai parando aqui e além, para reviver memórias de outros tempos. Recorda como se fosse hoje o seu segundo ano de faculdade quando, às escondidas do pai, (que, do Interior olhava os perigos da cidade grande), apanhava o autocarro para ir dar aulas. A aventura do ensino começou, como nos conta, pelas crianças, mas cedo percebeu que o caminho não passaria por ali. “Ficava impaciente com aquela exuberância infantil e não dava conta deles”.

Hoje, perdeu a conta ao número de alunos universitários que já lhe passaram pelas mãos. A chegar praticamente às 300 dissertações e teses defendidas sob sua orientação, Lucia Santaella, resume, com amor, o caminho percorrido: “É uma carreira inteira e ela faz-me muito bem”.

Descendente de espanhóis e italianos, a teórica brasileira, de energia contagiante, garante que muita da inspiração para enfrentar a vida lhe foi transmitida por um conjunto de “mulheres exemplares” que, no começo dos anos 60, se diplomavam pela primeira vez no Ensino Superior e iam prestar serviço para o Interior.

“Tive muitas professoras mulheres e isso marcou a minha vida. Tenho lembranças de professoras jovens, maravilhosas, com uma notável energia de transmissão. A arte do professor é a arte da transmissão. Temos de transmitir um sentimento de prazer pelo que fazemos. Isso é altamente inspirador”.

Rigorosa e exigente, Lucia Santaella, que com 16 anos já tinha decorado 81 teoremas para não chumbar a matemática, acredita ser possível trocar as contas à vida:

As coisas vão acontecendo e nós temos de estar à altura daquilo que a vida nos vai apresentando”.

Considerada por muitos como uma visionária por ter publicado em 1992 um livro sobre cultura dos media quando a internet só se viria a implantar, gradativamente, no Brasil, em 1995-1996, Lucia Santaella rejeita o rótulo de futurista: “Não sou uma visionária, apenas fico apalpando o presente”.

É assim que, como nos explica, no seu dia-a-dia, se serve dos alunos como um auscultador para ‘ouvir o mundo’, um método de “retorno do real” que, segundo a teórica brasileira, lhe permite ler a realidade de uma forma diferente.

Doutorada em teoria literária e especialista na obra de Charles Peirce, cedo Lucia Santaela revelou um interesse especial pela área da comunicação, onde hoje desenvolve grande parte dos seus estudos, em articulação com o universo dos media e da cultura digital.

Aluna de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, dois vultos da poesia concreta no Brasil e no mundo, Lucia Santaella confessa que ter recebido a semiótica pela mão de poetas foi um privilégio único. “Eu vinha do interior, tinha um pouco aquele espírito de cidade pequena. Eles fizeram-me dar o salto de uma mentalidade provinciana para uma mentalidade planetária”.

Essa consciência planetária trá-la consigo desde então. Por isso, quando, no início dos anos 90, e a caminho da sua casa de campo, começou a ver faixas publicitárias a promover o uso da internet, pensou: “isso aí vai dar samba” – que é como quem diz que a aventura da internet ainda agora estava a começar.

Quando, em 1996, foi convidada para organizar uma conferência para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Lucia Santaella confessa, no meio de tanto cientista, ter-se sentido altamente constrangida. “Nessa conferência propus fazer uma mesa redonda sobre internet. As pessoas olharam para mim com um desprezo que jamais esquecerei e disseram-me: ‘Internet é só tecnologia’. Eu costumo dizer que a História se vinga em quem vence a poesia, e eu estava com a poesia. Imaginem só que castigo. Só tecnologia? O que estamos a viver hoje é ‘só’ tecnologia, o que estamos a fazer agora é ‘só’ tecnologia? Que visão ridícula!”.

Tendo vindo a lutar contra a ideia de que a tecnologia é estranha e forasteira ao corpo humano, Lucia Santaella acredita que a ideia de um “eu” uno e de um corpo que não se transforma é meramente ilusória. “A tecnologia está a transformar o nosso corpo.A cognição humana foi crescendo e expandindo-se para além do nosso organismo biológico, como um prolongamento do nosso corpo e da nossa mente”.

Assumindo que o universo se tem tornado, cognitivamente, cada vez mais complexo, a teórica brasileira não tem dúvidas de que apenas a educação pode salvar o individuo. “Se nós não pusermos o nosso olhar aberto e curioso, sem preconceito, em relação a estas novas tecnologias e a estes novos meios, não vamos compreender este mundo, que está cada vez mais complexo”.

Se, como nos diz, os problemas profundos do Ser Humano parecem ter existido desde sempre, Lucia Santaella admite que as redes vieram intensificar a sua dimensão, dando a conhecer uma nova faceta do individuo.

“Quantas vezes damos por nós a ler coisas publicadas nas redes pelos nossos amigos e pensamos: ‘mas esta pessoa ficou louca?’. As redes afloram um lado muito ruim do Ser Humano, um lado que estava lá guardadinho no seu espaço doméstico e que, de repente, aflora para um espaço público, planetário”.

“As únicas pessoas que podem ter uma visão mais aberta e preparada são aquelas que investiram na sua formação educacional ininterruptamente. O mundo está demasiado complexo para que a pessoa permaneça fechada e cega na sua ignorância”.

Defensora da ideia de que a educação não existe de forma separada de uma formação que nos prepara para a vida, Lucia Santaella admite que a pandemia do novo coronavírus trouxe não apenas uma nova fase, mas uma nova realidade em termos de educação e comunicação.

“Nunca a semiótica foi tão importante como agora. A semiótica é uma ciência para ler o mundo. Se não soubermos ler signos estamos em falta com a possibilidade de entendermos mais profundamente a nossa relação com os outros e com o mundo”.

Admitindo que a pandemia colocou a nu a verdadeira face do planeta, “essas diferenças abissais entre os privilegiados e aqueles que estão à margem, não apenas da vida económica, da sobrevivência, mas também de uma educação que lhes dê cidadania”, Lucia Santaella acredita, porém, que:

Algumas lições ficaram em nós desta pandemia. E se o Ser Humano não levar essas lições em consideração, então, é porque o Ser Humano não tem mesmo salvação”.

Preconizando o surgimento de uma realidade cada vez mais híbrida, Lucia Santaella, que confessa estar ansiosa por regressar ao ‘mundo presencial’, admite que a realidade nunca mais será a mesma. “Já não me imagino a dar aulas apenas presenciais. É preciso guardar o recado daquilo que aprendemos durante a pandemia. Sinto que, no ensino remoto, estou a ser melhor professora do que era com o ensino presencial. Paradoxalmente, sinto-me mais perto dos alunos”.

Para além dos meios digitais e da proximidade que estes permitem, a investigadora, que confessa sentir-me mais à vontade ao entrar numa sala de aula do que na sua própria cozinha, realça outra particularidade pós-pandemia.

“Em termos semióticos a comunicação está a mudar muito, está a tornar-se mais seletiva. Estamos trancados e, ao mesmo tempo, com uma infinidade de janelas abertas para o mundo. E essas janelas abertas estão a trazer informação de primeira qualidade até nós. Aquilo que só ia para livros, para artigos de revista, de repente, está em acesso aberto. Esta avalanche de lives dá-nos a possibilidade de escolher o que queremos ver, a qualquer hora”.

O isolamento, a substituição do face-a-face e um olhar atento sobre a realidade, permitem a Lucia Santaella fazer uma outra projeção:

A televisão passou por uma verdadeira ressuscitação. Havia pessoas que tinham parado completamente de ver televisão e agora recomeçaram”.

O impacto, esse, está para ficar, e sobre o que aí vem, a investigadora brasileira parece ter poucas dúvidas: “Estamos na era da terceira escrita e da terceira oralidade. A oralidade já se transformou com os meios de comunicação de massa e, agora, com o WhatsApp ainda mais. Já não sou capaz de dar aulas sem que os alunos se inscrevam no WhatsApp. Sinto que eles têm uma fúria conversacional, não param de conversar durante a semana inteira, e eu vou seguindo, vou sabendo o que eles estão a pensar durante a semana. É uma outra forma escrita e oral de conversação”.

Para Lucia Santaella, o contacto com os alunos é peça fundamental do seu puzzle de vida. “Apaixono-me pelos alunos, sinto por eles uma profunda empatia. É muito difícil imaginar a minha vida sem isso. Aprendo muito com os meus alunos sobre mim mesma. A minha vida não é só com os livros, não sobrevivo só com isso. Preciso deste contacto com a curiosidade do outro”.

Escrever livros não basta, diz-nos. Não acredita numa vida intelectual solitária nem numa vida académica enclausurada em si mesma. “É preciso criar projetos em comum, desenvolver estratégias de superação. Insistir, resistir, não desistir”. O lema remete-a para o atual panorama político do seu país. Com a mesma energia vibrante com que conversamos há mais de uma hora, confessa-nos que, nos dias que correm, “é preciso encontrar algum caminho de resistência”.

Da mãe, professora de profissão, Lucia Santaella parece ter herdado não apenas o gosto pelo ensino, mas também o espírito combativo. Com um brilho no olhar confessa-nos que muita da sua carreira a deve a ela, uma mulher admirável que, “em 5 minutos olhava para uma criança e conseguia dizer se ela viria a ser alfabetizada ou não”.

Mais tarde, como avó, muitas foram as vezes em que largou tudo para cuidar dos netos e permitir a Lucia Santaella dedicar-se inteiramente aos seus estágios de investigação. Como nos conta a investigadora:

Quando nasceu a minha primeira filha eu era mais capaz de escrever um artigo do que de mudar uma fralda a um bebé. Escrevia um artigo e não conseguia pôr uma fralda”, diz, entre risos.

Com a filha com apenas três dias, Lucia Santaella não resistiu à tentação da ‘piscadela secreta’ de um dos livros arrumados na sua estante e, em 48 horas, leu a Gramatologia, de Jacques Derrida.

Deambulando entre a vida de mãe e a promissora carreira no universo da semiótica e do digital, Lucia Santaella tem tantas histórias para contar quanto livros para escrever.

Dos anos 90, lembra particularmente um episódio ocorrido na sua casa de campo, local onde se refugiava todos os fins-de-semana para escrever: “Devo muito do que escrevi à paz daquela chácara. Lembro-me que levava os amiguinhos dos meus filhos e eles pulavam e brincavam pela casa enquanto eu escrevia. Trancava-me no escritório e trabalhava 17 horas seguidas. Num desses fins-de-semana, os meus filhos estavam a brincar com os amigos e esqueci-me completamente da hora do jantar. Quando saí do escritório, abro a porta, e vejo a casa inteira cheia de pedaços de casca de pão. Os miúdos estavam com fome, mas não quiseram incomodar-me, então, atiraram-se aos pacotes do pão”, recorda, entre risos. As memórias são muitas e, como nos garante, “sempre prazerosas”.

A memória é sábia. Tende a guardar com mais nitidez os momentos mais gratificantes”.

É o caso do momento em que foi eleita, na cidade francesa de Perpignan, como Vice-Presidente da Associação Internacional de Semiótica pela América Latina. Do outro lado, e na concorrência, a representar Itália, estava, nada mais nada menos do que Umberto Eco. A competição foi acérrima, mas Lucia Santaella venceu.  Naquele dia, como nos conta, sentia-se leve, quase a flutuar: “O prazer não vinha só da honra, mas de sentir que o meu trabalho estava a ir na direção certa, de que os meus esforços estavam a ser recompensados. Eu não tinha outra força a não ser a promessa do saber”. Ainda hoje assim é.

Admite que não faz planeamentos quiméricos nem acalenta o passado. “O passado foi-se. O olhar que o presente nos dá do passado é aquele de uma vida que, inevitavelmente, vamos passando a limpo”.

Para o futuro, Lucia Santaella confessa ter apenas um objetivo em mente: terminar de escrever o livro sobre a sétima revolução cognitiva do Sapiens. Há cinco anos que começou a pensar nele e confessa que “está a sair a fórceps”. “Foram muitas leituras, muita atenção ao real, e agora, com as mudanças drásticas da vida da pandemia…”.

Mas as dificuldades não a fazem tremer. Sempre que se sente insegura recorda o lema de uma amiga que descreve como uma “mulher maravilhosa” que chegou a reunir mais de 6 mil pessoas para a ouvir. “Um dia perguntei-lhe: ‘O que fazes para conseguir isso?’. E ela respondeu-me: ‘Se a porta está fechada, eu pulo pela janela’. É uma espécie de lema para mim”.

Segura e confiante, Lucia Santaella caminha a passos largos rumo ao futuro. A conclusão mais importante, porém, já chegou. Resulta de uma ideia que a teórica brasileira começou a cultivar há anos e versa sobre “a extrassomatização  da cognição humana em tecnologias de linguagem que estão a crescer no mundo, materializando-se fora do corpo e do cérebro do Sapiens, uma cognição que se espalhou pelo planeta e já avança para o céu, nos satélites, nas explorações do espaço e que hoje nos permite observar a foto de um buraco negro, como se estivesse bem perto, na face dos nossos olhos”.

A tecnologia avança, Lucia Santaella segue atenta e curiosa ao mundo que a rodeia. Em cima da mesa já não tem mapas de geografia e latim, mas continua a acreditar que sentar-se para escrever é um ato de coragem. Com uma carreira que fala por si e experiência em todos os níveis de ensino, Lucia Santaella acredita que a sua maior conquista está naquilo que colocou no mundo – a sua obra. “É o que fica. O tempo é senhor da razão. É o tempo que dirá se isto, de facto, tem um significado ou não. De qualquer maneira, é um lance, algo que pus no mundo”.

50 livros publicados, 500 artigos científicos escritos, mais de 300 teses orientadas. Eis Maria Lucia Santaella, uma das maiores figuras teóricas da contemporaneidade.

Fecha a entrevista com um sorriso no rosto e deixa em tom desafiador: “Sobre isto tudo, costumo dizer aos meus alunos: cada um tem o google que merece!”.